Barbara Cartland

Um anjo desceu  terra

LIVROS ABRIL
Romances com Corao
Caixa Postal 2372 So PauloTtulo original:
"LOOK, LISTEN AND LOVE" Copyright: CARTLAND PROMOTIONS 1977
Traduo: MARIA DO ROSRIO SOBRAL
Copyright para a lngua portuguesa: 1982 ABRIL S.A. CULTURAL E INDUSTRIAL So Paulo
Composto e impresso em oficinas prpriasDigitalizao e arranjo:
Ftima Chaves
Esta obra destina-se ao uso exclusivo de portadores de deficincia visual.


CAPTULO I

1904
Tmpera! Tmpera!
Assim que ouviu chamar com tanta insistncia, a moa largou o vestido que estava costurando e correu para a escada.
A madrasta estava l embaixo no hall, parecendo uma extica ave-do-paraso, com seu vestido verde, um casaco de pele curto e o chapu de plumas impecavelmente colocado.
Olhando para cima, disse, nervosa:
Oh, Tmpera, consegui! Eu consegui! Desa depressa, que tenho que contar tudo.
Sem responder, a moa obedeceu, e foram para a pequena sala da frente.Lady Rothley atirou o casaco em uma cadeira e comunicou, radiante:
Ele me convidou! Finalmente, ele me convidou para ir ficar uns dias em seu castelo no sul da Frana!
Tmpera deu um gritinho de alegria.
Oh, querida, que emocionante! O duque no resistiu aos seus encantos! Eu sabia que isso ia acontecer!
Tinha as minhas dvidas disse lady Rothley, francamente. Tirou o chapu de veludo e ficou se observando no espelho. Tinha os cabelos brilhantes e um rosto muito 
bonito.
O que foi que o duque disse? E quando  que a senhora vai?
Na sexta-feira.
Sexta-feira? Mas, s temos trs dias para arranjar tudo.
No me importaria que fossem s trs minutos. Ele me convidou, e eu vou para o castelo perto de Nice. Quanto ao resto, no h o menor problema.
No.,. claro que no, mas a senhora vai precisar de roupas.
 evidente que preciso. E, principalmente, de dinheiro para compr-las. Estudou a reao da enteada e continuou: Voc sabe que tudo que usei no vero passado est 
praticamente em farrapos e que, nesta poca do ano, a temperatura no sul da Frana  muito amena. Estamos em maro e pode at ser que faa calor.
Sei disso, querida, mas vai ser difcil conseguir arranjar muito dinheiro!
No restou nada para vender?
S aquele quadro que estvamos guardando para qualquer emergncia.
Ento, vamos vender, Tmpera! Esta  uma situao de emergncia e tenho certeza, certeza absoluta, de que o duque est apaixonado por mim. Como a enteada no fizesse 
nenhum comentrio, continuou: Hoje, ele me disse que eu parecia um autntico modelo de Ticiano! Quem foi Ticiano?
Tmpera riu e o ar de preocupao desapareceu de seu rosto.A senhora tem obrigao de saber quem foi Ticiano! O duque tem razo: parece mesmo com o quadro de Vnus 
com o Lutador e, talvez, com a Vnus no Espelho.
Isso  um elogio?
Um grande elogio!
O duque estava certo: na verdade, sua madrasta tinha uma grande semelhana com o modelo de Ticiano nos dois quadros. Os mesmos cabelos dourados, o rosto redondo, 
lbios sensuais, olhos grandes e misteriosos e o mesmo tipo de corpo. A nica diferena era o espartilho que usava e que lhe tornava a cintura finssima, acentuando 
as curvas do busto e quadris. O espartilho afinava tanto, que a parte de cima do corpo parecia pertencer a uma mulher que vestia um manequim bem menor.
Lady Rothley vestia-se com perfeio e era realmente uma mulher muito bonita. Para Tmpera, nada mais natural que o duque de Chevingham a achasse muito atraente. 
Quando ele comeou a convidar sua madrasta para festas, no deu importncia especial ao assunto, j que as festas em Chevingham eram famosas exatamente pelas mulheres 
bonitas que as frequentavam. Mas depois de um ou dois convites para bailes e recepes, lady Rothley passou a ir tambm a jantares ntimos, o que era motivo de inveja 
de toda a sociedade. Mesmo assim, Tmpera e a madrasta no esperavam tanto. O convite do duque para o sul da Frana demonstrava claramente que estava bastante interessado.
Preciso de roupas, lindas roupas! Tmpera disse, sem hesitar:
 claro, querida. Vou j levar a gravura de Diirer para o amigo de papai, na National Gallery. Ele sempre se interessou muito por ele, mas, mesmo que no o queira, 
com certeza vai me pr em contato com possveis compradores.
Enquanto isso, acho melhor ir ver o que Lucille pode me fazer at sexta-feira.
Tmpera concordou, embora a meno do nome de madame Lucille a preocupasse um pouco. Era uma das mais caras costureiras de
Londres. No entanto, estavam as duas conscientes da urgncia e, sem dizer mais nada, Tmpera subiu para vestir o casaco e pr o chapu.
Foi depois ao estdio do pai e tirou da parede o nico quadro que restava. As marcas no papel de parede indicavam claramente tudo que j havia sido vendido.
Tmpera pensava muitas vezes que devia ter percebido que, quando o pai morresse, elas ficariam sem dinheiro. Era uma moa sensata, mas a madrasta sempre tinha vivido 
num mundo de fantasia, onde nada, alm do dinheiro, era realmente importante. Tudo porque sir Francis Rothley estava ligado a pessoas importantes, sempre convidado 
para a casa de grandes colecionadores de arte. Mas, ao morrer, levou para o tmulo sua nica riqueza: o fato de ser um dos mais conceituados peritos em arte e consultor 
das melhores galerias.
Foi Tmpera quem fez a relao do esplio e forou a madrasta a encarar a realidade. Ia ser muito difcil viver com o pouco que tinham.
Como  que vamos fazer? perguntou lady Rothley, desencorajada.
Ela nunca havia enfrentado dificuldades. Alaine tinha sido criada no campo, filha de um fazendeiro pertencente a uma famlia plebeia, embora educada. Ficou noiva 
aos vinte anos, mas pouco depois o noivo foi morto na ndia. Passado o luto, viajou para Londres, para morar com uma tia, e por puro acaso e sorte encontrou sir 
Francis Rothley num jantar. Ele ficou to encantado com sua beleza, que, embora estivesse vivo h apenas um ano, no resistiu e pediu-a em casamento.
Aceitou, entusiasmada, no s para fugir da vida austera que levava, mas tambm porque,  sua maneira, o amava. Alaine era incapaz de sentimentos muito profundos, 
apesar de parecer uma mulher de grandes paixes. Era encantadora, amvel, mas muito superficial. Queria que todos a amassem; por isso, nunca tomava posies definidas 
ou contradizia algum.
Sua vida era um navegar sereno ao sabor de ondas, e a nica coisa que realmente a realizava era que os homens a achassem bonita. Era impossvel para qualquer um, 
muito menos para Tmpera, no gostarde Alaine. Mesmo sendo muito mais nova, considerava a madrasta uma criana que ela teria que cuidar, uma pessoa que precisaria 
sempre de proteo.
No entanto, foi Alaine quem encontrou a melhor soluo para os problemas das duas. Tinha olhado, sem entender, as contas que Tmpera fez depois da morte do pai, 
quando as dvidas comearam a aparecer.
Temos que casar!
A enteada olhou-a, surpresa.
Casar?
Era to sem propsito falar de semelhante coisa no momento em que seu pai tinha acabado de falecer.
No h outra soluo. Ns duas precisamos de um marido que nos sustente. Alm disso, no queremos passar o resto da vida sozinhas, no ?
Tmpera achou que aquela tinha sido a nica coisa sensata que a madrasta tinha sugerido, mas ela, como de costume, conseguia perceber que no seria to fcil assim.
Para isso, vamos precisar nos vestir bem, e no h dinheiro suficiente para comprar roupas novas para as duas.
Olharam uma para a outra, e foi Tmpera quem falou primeiro:
A senhora precisa casar primeiro; e ento, poder me ajudar.
Claro que a ajudarei, meu bem, e voc est certa. Como sou a mais velha, tenho que arranjar um marido primeiro... e bem depressa! Sorriu e acrescentou: No me parece 
muito difcil.
No,  lgico que no.
No entanto, Tmpera era bastante inteligente para saber que uma bela viva sem fortuna atrairia toda espcie de homem, mas s muito poucos, como seu pai, estariam 
dispostos a casar.
Tmpera era diferente: quase no saa de casa, no ia a festas, o que era normal para uma moa que ainda no tinha debutado. Conhecia poucos homens, quase todos 
importantes e de meia-idade, que iam a sua casa pedir a seu pai opinio sobre obras de arte. s vezes, noseu inimitvel e divertido jeito de falar, ele lhe contava 
coisas sobre as vidas e os interesses desses cavalheiros.
Tmpera era muito inteligente e tinha uma tima memria. Lembrava perfeitamente tudo que o pai lhe contara sobre essas pessoas ilustres, assim como recordava de 
todas as biografias dos antigos mestres de pintura.
Os interesses da madrasta, por outro lado, resumiam-se simplesmente  vida social. Sabia o nome de cada nova beldade que o rei queria conquistar, de todos os apaixonados 
pela duquesa de Rutland e de quem estava totalmente seduzido pelos encantos de lady Curzon.
Era um mundo fascinante de luxo e sofisticao, para Tmpera, to inconsistente como as lindas bolas de sabo que fazia quando criana. Tinha um bom senso nato, 
e era ela quem controlava e aconselhava a bela e amvel madrasta. Entre outras coisas, providenciava para que Alaine frequentasse os lugares certos, para que pudesse 
ser convidada pelas pessoas que realmente eram importantes.
Em Ranalagh, Ascot, na abertura da Royal Academy, em Henley, e mesmo no 4 de junho em Eton, lady Rothley tinha que ser vista em toda a sua beleza, com um lindo sorriso 
e os olhos brilhando, de forma a seduzir irresistivelmente todos os homens. Muito observadora, a enteada descartava logo qualquer homem que se aproximasse dela com 
intenes que no fossem srias.
Ontem  noite, encontrei um homem maravilhoso tinha dito lady Rothley, dois dias atrs, quando Tmpera lhe levou o caf de manh na cama. No saiu de junto de mim. 
Quando me beijou a mo, meu corao bateu feito louco. Verdade, Tmpera!
Quem era?
Lorde Lemsford. J ouviu falar nele?
No tenho certeza, mas vou me informar.
Ps a bandeja do caf ao lado da madrasta, que se ergueu para se servir e ver o que ia comer.
Oh, Tmpera, s um ovo?
10Sabe muito bem, querida, que quase j no consegue entrar nos vestidos que tem.
Mas estou com fome! Estou sempre esfomeada.
A senhora come demais quando sai. Deve aproveitar e fazer uma dieta, quando est em casa, porque, alm do mais, sai mais barato!
Lady Rothley no respondeu. Comia o ovo sofregamente, pensando na gelia que ia colocar nas duas torradinhas que Tmpera a deixava comer. Embora quisesse manter 
a cintura esbelta, gostava muito de comer. Mas era difcil resistir aos pratos deliciosos que lhe serviam nas festas.
Passaram-se poucos minutos, desde que Tmpera tinha ido at o estdio do pai, buscar alguns livros para consultar. A maioria era sobre arte, mas havia tambm um 
exemplar do Debrett, verdadeiro quem--quem da nobreza, que consultavam quando escreviam para os clientes. As cartas tinham que ser endereadas corretamente. Quando 
entrou de novo no quarto da madrasta, lady Rothley olhou-a, interrogativamente. Ento?
Tem trinta e nove anos, uma casa em Londres e outra em Somerset, pertence aos melhores clubes e... Parou para ver o efeito que as suas palavras produziriam.... Uma 
mulher e cinco crianas!
Lady Rothley ficou exaltada.
Todos os homens casados deviam ter uma marca na testa ou, ento, usar uma algema nos pulsos.
Tmpera riu.
No se incomode, querida, talvez ele convena a esposa a convid-la para alguma festa ntima, onde conhecer algum livre.
Ele era to encantador! Eu devia ter suspeitado de que havia qualquer coisa que no estava certa.
Foi como aquele que conheceu na semana passada e que depois soubemos que estava praticamente falido. Desconfiei logo dele, quando
11descobri que era scio de apenas um clube e, ainda por cima, dos mais insignificantes.
Mas, agora, a situao era bem diferente.
Tmpera apanhou uma carruagem para Trafalgar Square, para ir  National Gallery, fazendo um esforo para no dar importncia ao fato de ter que se desfazer da ltima 
obra de arte deixada pelo pai, s para comprar os vestidos que Alaine precisava.
Tinha conservado a gravura de Direr, no apenas porque gostava muito dela, mas principalmente porque, como dissera na ltima vez que vendeu um quadro, deveriam 
guardar alguma coisa para tempos mais difceis.
Quando fez esse comentrio, pensou que ela ou a madrasta poderiam adoecer, o telhado precisar de conserto ou Agnes pedir demisso, o que seria um perfeito desastre. 
Tmpera sabia que no conseguiria nunca encontrar outra empregada to barata. Alm disso, como Agnes tinha estado com sua me at a morte, sentia um carinho enorme 
pela velha e no podia sequer imaginar a casa sem ela. Isso apesar de a criada, agora com setenta e sete anos, j no conseguir fazer o servio e p'reparar as refeies 
como antigamente.
Quando era preciso, Tmpera cozinhava, mas s em ocasies especiais, porque a madrasta a monopolizava tanto que no sobrava tempo para mais nada. A maioria dos vestidos 
de lady Rothley era feita em costureiras, mas era Tmpera quem arranjava seus graciosos chapus, muito mais barato do que qualquer profissional faria. Passava, consertava 
e limpava todos, alm de ter uma arte especial de transform-los com algumas fitas, flores ou outro enfeite, fazendo com que um velho chapu parecesse um ltimo 
modelo.
Quando chegou em casa, eram quase seis horas e as lojas j estavam fechadas. Por isso, no se surpreendeu ao encontrar a madrasta deitada no sofazinho de visitas 
no primeiro andar. Parecia uma deusa dormindo. 
12Mas assim que Tmpera abriu a porta, levantou a cabea e perguntou:
Quanto voc conseguiu?
Setenta e cinco libras.
Lady Rothley deu um gritinho de satisfao e sentou.
Setenta e cinco libras? Mas isso  maravilhoso!
No podemos de forma alguma gastar tudo, querida. Realmente, no podemos. Observou a expresso da madrasta e explicou: Na volta, vinha pensando que devamos guardar 
vinte e cinco libras e que o resto a senhora pode gastar.
Bem, acho que  melhor ter cinquenta libras do que nada disse Alaine, com visvel m vontade.
Posso transformar seus chapus do vero passado de forma que fiquem irreconhecveis. Estava pensando que, se colocssemos uns laos novos no vestido que usou em 
Ascot, o efeito seria timo, porque a cor lhe fica maravilhosamente bem.
Percebeu que a madrasta no tinha ouvido uma s palavra. Como isso nunca acontecia quando se tratava de vestidos. Tmpera perguntou, preocupada:
O que  que est acontecendo? H qualquer coisa que no quis me dizer?
Embaraada, lady Rothley respondeu:
O duque espera que eu leve uma aia. Tmpera ficou quieta por alguns segundos.
Ele realmente espera isso?
 claro que sim! Disse que, se eu e minha aia estivermos na estao Vitria s dez horas da manh de sexta-feira, o coronel Anstruther estaria l  nossa espera 
para ajudar no que fosse preciso.
 o administrador dele?
Sim,  um homem encantador. Encontrei-o vrias vezes em Chevingham.  um perfeito cavalheiro, e o duque parece confiar inteiramente nele.
13As duas sabiam muito bem que estavam evitando falar no assunto mais importante.
Depois de um longo silncio, Tmpera perguntou:
Ser que  absolutamente essencial que a senhora leve uma aia?
Como  que posso ir sem uma? Voc sabe que no consigo me vestir e arrumar sozinha. Alm disso, todas as outras convidadas levaro as suas.
No vai ser fcil. Fora a despesa, no h tempo suficiente para treinar uma criada.
Tenho certeza de que voc ser capaz de encontrar uma boa aia na Agncia Mount Street disse lady Rothley, cheia de confiana.
No pode dizer que sua aia  velha e doente, como a pobre Agnes? Assim, talvez o coronel Anstruther encontre alguma criada francesa, ou mesmo uma das empregadas 
da casa possa ficar a seu servio.
Uma aia francesa, no! Meu francs no  bom. Nunca serei capaz de me fazer entender. Alm disso, ser muito constrangedor chegar cheia de bagagem e no ter ningum 
para desfazer as malas e arrumar tudo.
Sim, claro. Mas j percebeu que isso vai representar comprar menos um vestido?
Lady Rothley ficou amuada.
No posso levar nada menos do que j encomendei. Tenho certeza de que Dottie Barnard estar na festa, e eu j lhe disse que ela  muito elegante. Estreia um vestido 
novo todas as noites, usa jias que praticamente brilham mais do que os lustres do salo.
Mas sir William  um dos homens mais ricos da Inglaterra lembrou Tmpera, em tom cortante..
 exatamente por isso que  ntimo do rei e de todos os Rothschild. Oh!, se ao menos ns tivssemos algum dinheiro!
Se a senhora casar com o duque, ter tudo que precisa e muito mais.
Ento,  melhor no ir para o sul da Frana. Recuso-me a ir feito
14uma pobre pedinte. E tambm no quero levar uma aia toda emproada reclamando que tem que serzir minhas roupas, de to velhas que so. Lady Rothley atirou-se no 
sof, indignada. O problema, Tmpera,  que quero tantas coisas novas, e  por sua causa que tenho tentado conservar o que temos.
Sei disso, mas vamos tentar encontrar uma aia que, alm de compreensiva, saiba usar bem uma agulha de costura.
Uma rabujenta, com certeza. Como aquela mulher venenosa que estava aqui antes de seu pai morrer. "Francamente, senhora, suas roupas ntimas mais parecem uma colcha 
de retalhos!", a atrevida costumava me dizer. Como eu a detestava!
Tmpera riu.
Ela no ficou conosco muito tempo, e s quando foi embora  que descobrimos as suas roupas escondidas no fundo de uma gaveta, porque nunca teve pacincia para costurar.
Pelo amor de Deus, no me arranje outra igual! E houve mais aquele horror... como era mesmo o nome?
Acho que se refere a Arnold.
Essa mesmo, Arnold! Estava sempre tomando ch quando eu precisava dela e simplesmente se recusava a aparecer, antes de acabar de tomar a "sagrada bebida".
Tmpera riu de novo.
Teremos que arranjar uma que no goste de ch.
Todas gostam.  a bebida oficial das empregadas. Mas, quando dizia isso a seu pai, ele sempre respondia que era melhor ch do que gim. E eu tinha que me calar.
Creio que papai estava imaginando quanto gim foi consumido pelos empregados no sculo XVIII. E  certo que em todas as casas ricas eles continuam bebendo uma quantidade 
enorme de cerveja.
No me importo que bebam at champanhe, desde que estejam  minha disposio sempre que eu precisar. Mas estou preocupada  com a ideia de precisar de uma aia.
Tmpera no respondeu. Tirava a capeline que tinha posto para
15ir  National Gallery e ajeitava as ondas dos seus cabelos avermelhados. Era esbelta e graciosa, mas bem diferente de todas as mulheres sofisticadas com quem a 
madrasta se relacionava. Para acentuar mais a diferena, em vez de usar os cabelos soltos, com cachos caindo pelo rosto, usava-os presos num coque. S quando estava 
muito ocupada  que caam pequenos caracis em volta do rosto, dando-lhe a aparncia de uma madona pintada pelos pintores clssicos italianos.
Tmpera afastou com a mo alguns caracis, sem sequer reparar no espelho, preocupada que estava com a madrasta e o problema que tinham. S ela sabia o pssimo estado 
em que estava toda a roupa ntima de Alaine. Principalmente as meias, que em vez de simplesmente serem jogadas fora, como faria qualquer outra mulher elegante, tinham 
que ser remendadas e serzidas vrias vezes.
Lady Rothley devia estar pensando no mesmo, porque, de repente, se lamentou:
Oh, Tmpera, se ao menos pudesse vir comigo!
Como gostaria de ir! Daria tudo para ver o sul da Frana. Papai costumava descrever como era. Inclusive, quando ficou na manso de lorde Salisbury, em Beaulieu, 
e visitou a vila Vitria, que pertence a Alice Rothschild. Ele disse que era cheia, abarrotada de preciosidades. A senhora tem que ir l.
No estou interessada em preciosidades. S no duque. E fao votos de que saiba lhe dizer as coisas certas nos momentos oportunos.
Ele se interessa bastante por pintura. Tem uma magnfica coleo na casa de Chevingham, como a senhora j deve ter visto. E, na casa de campo, tem exemplares preciosos 
dos antigos mestres. Papai falava muito na coleo de Chevingham.
Se o duque comear a falar nisso, o que devo responder? Voc sabe muito bem que no consigo lembrar os nomes de todos esses enfadonhos pintores. Nunca sei quem foi 
Rafael ou Rubens, misturo tudo, porque para mim so todos iguais.
Ento, por favor, fique calada. Quando papai lecionava arte, dizia sempre aos alunos que o que ele mais queria deles  que "visseme escutassem". E  isso que a senhora 
deve fazer: ver e escutar.
Sorriu e acrescentou, num tom meigo: Ficar to encantadora tomando essa atitude, que no haver necessidade de dizer coisa alguma.
s vezes,  impossvel ficar calada. O que  que farei, quando algum me disser: "sei que gosta do estilo de Petronella, ou Popakatapettle, ou qualquer outro nome 
estranho desses" e se voc no estiver l para me explicar a quem ou a qu se referem? Fez uma pausa. Notava-se que estava apreensiva. Tmpera! Por que no vem comigo?
O que  que a senhora quer dizer com isso?
Quero dizer que ningum a conhece, ningum a viu antes, e seria to importante t-la junto de mim para me dar apoio e ajudar.
Est sugerindo que eu v como se fosse sua aia?
E por que no? Tenho certeza de que todas as aias de senhoras da sociedade so pessoas de timo aspecto e educao. Veja o caso de Arnold. Se no fosse assim, no 
seria aia em casa to importante. Como Tmpera no respondesse, insistiu: Pelo amor de Deus, voc tem que reconhecer que  a nica soluo. Pode cuidar de minha 
roupa e me ensinar quais so os melhores quadros, se bem que no entendo por que  que algum pode gostar tanto de ter todas essas pinturas nas paredes.
Suponha que o duque descubra quem sou. No lhe parece que vai achar tudo muito estranho?
E como  que vai descobrir?  evidente que voc tem que usar um nome falso, e no acredito que ele saiba que seu pai tinha uma filha. Nunca comentou nada a seu respeito.
Tmpera foi at a janela. Ficou observando o pequeno quintal dos fundos, que parecia ainda mais sujo sob aquele cu cinzento e triste.
Estavam em maro. Um maro frio, fustigado pelo vento norte e chuvas de granizo. Tmpera ainda no tinha conseguido se reanimar, desde a volta de Trafalgar Square. 
A caminhada pela Curzon Street
17tinha feito se sentir um pouco mais quente, mas ainda estava com o nariz e os dedos gelados.
Comeou a imaginar o mar azul, com ondas quebrando nas rochas, as flores, as casas brancas, alegres e bonitas, que o pai tantas vezes tinha descrito.
Virou-se para a madrasta.
Irei com a senhora! Ser uma aventura extraordinria. S que teremos que tomar muito cuidado, mas muito cuidado mesmo, para que ningum descubra quem sou.
Assim que a carruagem chegou perto da estao Vitria, Tmpera saiu do banco onde estava ao lado da madrasta e sentou-se no banco da frente, com as costas voltadas 
para os cavalos, como devia fazer uma aia exemplar.
Olhando para lady Rothley, ficou satisfeita em considerar que tinha feito um verdadeiro milagre na roupa de viagem que a madrasta tinha usado durante vrios anos 
e que agora, reformada, parecia nova e irreconhecvel. Na blusa azul-marinho, tinha posto uns babados finos de seda da mesma cor e debruado o corpete. O forro de 
pele da capa havia sido aproveitado de um antigo casaco de inverno de sir Francis. Das sobras da pele, fez uma bonita gola que valorizava ainda mais o rosto adorvel 
de Alaine. Usava um gorro amarrado com fitas debaixo do queixo. Era um acessrio do luto pelo pai, que no teve coragem de jogar fora, e agora se mostrava muito 
til. O vestido preto, sem nenhum enfeite, e a capa eram to austeros, que parecia que ia para um funeral. No tinha conscincia de que essa roupa realava ainda 
mais a brancura de sua pele e os reflexos acobreados dos cabelos. Esteve to ocupada nos ltimos trs dias, que nem pde pensar em si mesma.
Quase no teve tempo para dormir, sempre passando, engomando, tratando das roupas e da arrumao das malas da madrasta. Foi obrigada a reclamar com ela uma ou duas 
vezes, quando chegaram as
18contas dos vestidos, que custaram mais do que as cinquenta libras que tinham reservado para roupas.
Precisamos levar algum dinheiro tinha dito lady Rothley na vspera.
Eu sei, mas a senhora tem que tomar muito cuidado, gastar o mnimo possvel, j tivemos que tirar dinheiro do pouco que estava guardado.
Se eu casar com o duque, no precisaremos mais fazer economia.
E se no casar?
Lady Rothley sentiu-se como uma criana apanhada de surpresa, fazendo diabruras.
No seja m comigo, Tmpera. Todo esse jogo tem que dar certo. Preciso ganhar. Vou ganhar!
Sim, minha querida, eu sei. Mas isso no  motivo para perder o bom senso.
Como odeio o bom senso! Mas tenho certeza de que o duque me pedir em casamento e, desse momento em diante, tudo ser maravilhoso! Continuou, com expresso sonhadora: 
Vou dar um baile em sua honra em Chevingham House e convidaremos todos os melhores partidos da Inglaterra. Sero todos seus, uma vez que j estarei casada.
Estava dando asas  fantasiosa imaginao, que Tmpera sabia to bem no ter nada a ver com a realidade. No conseguia deixar de se sentir apreensiva, porque talvez 
o duque, ao convidar sua madrasta, no tivesse outra inteno, a no ser ter mais uma mulher bonita na festa.
Por tudo que se sabia do duque de Chevingham, era um dos mais cobiados e caados solteiros da Inglaterra. Aos trinta anos, segundo informava o Debrett, no havia 
nenhuma razo vlida para que quisesse casar com uma viva, que, embora muito bonita, no era nobre, nem de famlia muito distinta.
Tmpera tinha a desagradvel impresso de que, desde o incio dos tempos, os verdadeiros aristocratas procuravam casar s com pessoas
19do mesmo nvel social e econmico. Era muito provvel que o duque de Chevingham quisesse casar com a filha dos duques de Northumberland, Devonshire ou Richmon, 
do que com Alaine Rothley.
Mas, como esses pensamentos s serviriam para entristecer a madrasta, guardava-os s para si.
Os cavalos comearam a dar a volta devagar para parar na estao Vitria.
No esquea, querida: daqui em diante, mesmo que estejamos sozinhas, a senhora tem que me tratar por Riley.
Vou fazer o possvel para lembrar. Pelo menos, comea com a mesma inicial do seu verdadeiro sobrenome, e isso j ajuda.
Tmpera sorriu, porque a madrasta se limitava a repetir suas prprias palavras. Era sempre um erro tentar disfarar algum de uma maneira complicada. Riley no era 
muito diferente de Rothley. Escolhera esse nome porque, quando foi  National Gallery vender a gravura, reparou num dos magnficos retratos pintados por Riley no 
sculo XVII. Quinze desses quadros faziam parte do acervo daquele museu.
A carruagem parou em frente da estao.
Vou chamar um carregador, senhora.
Tmpera desembarcou e supervisionou a retirada das malas, que vinham no alto da carruagem.
Lady Rothley comeou a descer, parecendo desprotegida e linda. Quase imediatamente, aproximou-se um homem com o uniforme de Chevingham. Tirou respeitosamente o bon 
e, fazendo uma reverncia, perguntou:
Desculpe, madame, mas a senhora  convidada para a festa do duque de Chevingham, no ?
Sou lady Rothley!
Siga-me, por favor. Sua bagagem j est sendo despachada. Outro homem aproximou-se de Tmpera.
No se preocupe, eu trato disso.
Ento, por favor, veja que no esqueam nenhuma mala.
20Pode ficar descansada. D-me essa sacola. No h necessidade de voc carregar nada, porque temos um carregador a nossa disposio.
Falava em tom familiar, como um empregado fala a outro, e, assim que a bagagem estava toda junta, entrou na estao ao lado dela.
Voc j esteve no sul antes?
No. Estou ansiosa para ir.
Que bom poder fugir desse frio! Sinto inveja de voc.
Voc no vem?
No tenho tanta sorte. Mas certamente o sr. Bates, o mordomo, vai. Ele viajou ontem com o duque e seus criados pessoais. Como eu gostaria de ser um deles!
Quer dizer que o duque j viajou?
Certamente. Ele no gosta de muita confuso e barulho, quando viaja, e acho que tem toda razo. Sorriu para Tmpera, ntimo.
No sei como  que voc consegue tomar conta de si mesma com esses conquistadores rondando. Por tudo que tenho ouvido, eles no so de confiana, quando se trata 
de uma mulher bonita.
No se preocupe, que sei bem tomar conta de mim.
Espero que sim, mas esteja sempre alerta e no v passear sozinha ao luar.
Vou me lembrar do seu conselho.
A nica exceo  este seu amigo acrescentou o homem.
Vou esperar ansioso pela sua volta. A gente vai se divertir muito, quando sua senhora vier passar uns dias conosco na casa de campo.
Vou pensar no assunto cuidadosamente disse Tmpera, fazendo fora para no rir.
Sabia que s o fato de ser to jovem permitia ao lacaio do duque falar-lhe daquela maneira desrespeitosa, pois, para todos os efeitos, ela era uma empregada com 
um cargo bem superior ao dele. De qualquer modo, no conseguia deixar de se divertir com a conversa.
Quando chegou ao trem, constatou que todos os pormenores da viagem haviam sido perfeitamente organizados. O duque tinha sempre
21dois vages particulares atrelados ao trem normal. Um deles acomodava seus convidados, como lady Rothley, e o outro era ocupado pelos empregados particulares, 
um mensageiro e carregadores que s viajavam at Dover. Havia uma quantidade enorme de bagagem pessoal, alm de outras duas aias.
Assim que Tmpera embarcou, percebeu que algumas daquelas pessoas seriam as suas companheiras, no s durante a viagem, como no castelo tambm.
Na hierarquia, etiqueta e protocolo que havia nesse mundo abaixo do seu, sabia que as aias se consideravam uma raa superior ao restante dos empregados. Tinha aprendido 
h muitos anos, quando os pais eram convidados para ficar em casa de pessoas importantes, que a aia mais antiga tinha sempre prioridade na casa: sentava-se  direita 
do mordomo, na ala dos empregados, e o chefe dos criados,  direita da governanta.
Olhou rapidamente para as duas outras aias. Alm de serem muito mais velhas do que ela, eram tambm muito mais importantes. Aparentemente, conheciam-se bem, mas 
era bvio que no morriam de amores uma pela outra. A srta. Briggs tinha autoridade sobre a srta. Smith, e ambas relegaram Tmpera a um terceiro plano.
Estavam muito satisfeitas por ela no conhecer ainda o sul da Frana, porque assim podiam mostrar bem seus profundos conhecimentos. Dependeria delas para qualquer 
informao que precisasse.
Assim que o trem comeou a andar, sentiram-se todos mais tranquilos, bebendo champanhe que o carregador tinha servido na carruagem dos hspedes e mostrando bem a 
preferncia que tinham por sanduches de pat de fgado, em vez de caviar.
Uma coisa  preciso reconhecer comentou a srta. Briggs, enquanto aceitava a segunda taa de champanhe. Sua Senhoria sabe fazer as coisas com classe.  inacreditvel, 
mas, quando viajamos com o marqus de Tenby no ano passado, tive que ir num vago com um de segunda classe e com gente estranha!
22Falou com tanta indignao, que Tmpera teve que fazer um esforo para no rir.
Espero que no tenha dito  Sua Senhoria o que pensou de semelhante atitude. A srta. Smith fez cara de desgosto.
E como! Ficou praticamente chorando, quando lhe disse que, devido ao desconforto durante a viagem, sentia-me incapaz de passar o vestido dela para a festa de noite 
da chegada.
 assim mesmo que se faz!
No vejo por que temos que abdicar dos nossos direitos, se sabemos to bem que nossa patroa no vive sem ns.
Percebeu que Tmpera escutava a conversa disfaradamente.
Voc  muito nova, srta. Riley. Suponho que no tenha muita experincia.
No muita.
Ento, deixe-me dar-lhe um conselho: insista e lute pelos seus direitos. Mesmo hoje em dia, ainda h os que pensam que qualquer coisa serve para os empregados. Mas, 
na nossa posio, temos a obrigao de lhes mostrar como esto errados.
Temos, mesmo concordou a outra, com um leve sorriso. Mas no castelo Bellevue no h nada desconfortvel, e isso  um grande consolo para esta viagem cansativa.
Nunca estive l disse a srta. Smith.
 muito luxuoso. E no me importo de dizer que acho que  porque o duque  solteiro. As casas onde no h patroas para complicarem tudo so sempre mais confortveis.
Concordo com voc. Mas  estranho que, bonito como , sua senhoria nunca tenha sido apanhado. E olhe que no foi por falta de candidatas, tenho certeza.
Claro que no. Na festa do ano passado, duas senhoras quase se mataram por causa dele. At o mordomo, sr. Bates, disse que estava surpreso, porque a atitude delas 
superava tudo que tinha visto antes.
E no conseguiram nada!
23Acho que o duque no quer casar com ningum. Est mais interessado em seu trabalho. E quem pode censur-lo? Com sua aparncia e dinheiro, pode ter qualquer mulher, 
sem se dar ao trabalho de lhe comprar uma aliana.
Isso  verdade.
As duas riram, e Tmpera sentiu um aperto no corao. Se tudo aquilo era verdade, a venda do quadro e todo o dinheiro gasto no guarda-roupa novo da madrasta no 
serviriam para nada.
24CAPTULO II
A viagem atravs da Frana, mesmo para as aias, foi muito mais confortvel do que Tmpera poderia imaginar.
Tinha visitado Paris com os pais, aos dez anos, e, depois da morte da me, foi com o pai a Bruxelas, porque ele no queria deix-la sozinha em Londres.
Embora sua experincia de viagens fosse praticamente nula, sempre teve a impresso de que os trens franceses eram desconfortveis e barulhentos.
Era bem diferente viajar nos vages particulares do duque, que tinham sala de estar, sala de jantar e dormitrios para os convidados e outros tambm para os empregados.
Para sua alegria, Tmpera teve um compartimento pequeno s para
25ela. Quando acordou de manh cedo, limpou a umidade da janela para poder observar bem a paisagem. Os campos ao sol eram muito bonitos, e, de repente, comeou a 
ver o azul profundo do Mediterrneo. Estavam chegando a So Rafael.
Adoraria ficar sentada  janela, vendo a paisagem, o resto do dia, mas tinha obrigaes. Depois de tomar uma xcara de caf com uns croissants deliciosos, foi at 
o carro-dormitrio, encontrar sua "patroa".
Tinha visto a sala de estar na noite anterior, quando desfazia as malas da madrasta. As paredes eram forradas de seda e as cadeiras e o sof, estofados com um brocado 
verde-plido. As cortinas eram verdes e brancas e o cho, coberto por um carpete indiano, bastante colorido.
Ficou muito bem-impressionada com o que viu; principalmente, com o dormitrio ocupado por lady Rothley, amplo e mais bem-decorado do que a maioria dos carros-dormitrios. 
O suporte do lavatrio era forrado em couro vermelho escuro e todos os aparelhos sanitrios, em metal branco.
Mesmo de manh cedo, lady Rothley  muito bonita, pensou Tmpera, assim que entrou no quarto. Estava com olhos de sono e com os cabelos dourados soltos cobrindo 
os ombros. Sentiu que qualquer homem a acharia extremamente desejvel.
Voc me acordou! repreendeu a madrasta.
Desculpe, querida, mas deveremos chegar dentro de uma hora, e sabe o tempo que leva para se arrumar.
De repente, lembrou que ali era aia e no a enteada, e disse, rapidamente:
Tem que se levantar, senhora. O trem no demorar em Villefranche, onde teremos que descer, porque depois segue para Monte Cario.
Podemos falar normalmente. No creio que algum esteja escutando pelo buraco da fechadura.
Nunca se sabe. E a senhora tem que comear a se habituar a me chamar de Riley.
26Estou morta de sono queixou-se lady Rothley. Nunca consigo dormir direito num trem.
Tmpera sabia muito bem que aquilo era mentira, mas no estava com vontade de discutir. Tinha ficado to maravilhada com as paisagens que vira, desde que o trem 
saiu de So Rafael, que era muito difcil conseguir pensar em outra coisa que no fosse a beleza dos lugares por onde iam passando.
O pai tinha descrito o sul da Frana diversas vezes, mas, por mais perfeitas que fossem as imagens que tentava transmitir, ver tudo pessoalmente era completamente 
diferente.
Sentia muita pena por terem feito parte do percurso durante a noite. Assim, no pde admirar uma boa parte do pas nem as encostas dos Alpes.
Era uma tarefa difcil tirar lady Rothley da cama e vestir-lhe o elegante traje azul-claro que achava apropriado para a chegada.
Assim que Tmpera guardou a roupa que a madrasta havia usado na viagem, teve a sensao de ter feito desaparecer tambm uma poca cheia de dificuldade e problemas. 
De agora em diante, abriam-se as portas a uma vida nova e despreocupada. Se tudo corresse bem.
O trem parou em Nice durante bastante tempo, e Tmpera desejou poder visitar a cidade sobre a qual Smollett tinha escrito tanto. Mas foi impossvel porque lady Rothley 
s ficou pronta justamente quando o trem saiu de Nice, seguindo para Villefranche.
Ao chegarem, Tmpera constatou a eficincia com que o duque tinha mandado organizar tudo para acolher seus hspedes. Havia duas carruagens para transportar as malas 
e um landau puxado por quatro cavalos, para os empregados.
Este ltimo tinha uma capota de linho com franja, que protegia os ocupantes do sol. Era apenas um pequeno detalhe, mas que, uma vez mais, revelava a considerao 
e o cuidado que o duque tinha por todos.
Havia ainda mais carros para levar a montanha de bagagens. Enquanto os empregados separavam e identificavam as malas dos patres, 
27estes j estavam acomodados nas carruagens que os levariam ao castelo.
Tmpera certificou-se de que as malas de couro e as caixas redondas dos chapus da madrasta estavam todas na carruagem das bagagens e ento, tranquila, finalmente 
teve tempo para observar a paisagem  sua volta.
Viu de relance o porto de Villefranche, cheio de navios mercantes com seus altos mastros, e deslumbrantes iates brancos. Ficou imaginando que um deles devia pertencer 
ao duque, mas no quis perguntar. Era melhor ficar quieta, contentando-se em desfrutar a paisagem semitropical, enquanto os cavalos comeavam a subir a colina.
Nos dois lados ao longo da estrada havia olival, palmeiras e pequenos vales cobertos de flores do campo.
Ficou um pouco desapontada pelo caminho no ser  beira-mar, mas as montanhas com os cumes cobertos de neve que se podiam ver entre as rvores eram to bonitas que 
compensavam.
As aias conversavam o tempo todo, e Tmpera pensou que era melhor depois prestar um pouco de ateno no que diziam, porque poderia aprender alguma coisa que lhe 
fosse til.
Naquele momento, porm, s tinha olhos para as orqudeas selvagens.
Iam subindo cada vez mais alto, at que, subitamente acima deles, bem alto sobre um promontrio que Tmpera reconheceu como o de Santo Hospcio, apareceu a silhueta 
que parecia ser de um castelo recortada no cu de um azul intenso.
 a casa do duque? perguntou, surpresa.
Impressionante, no? comentou a srta. Briggs.
Era muito mais do que impressionante. Parecia um castelo medieval, imponente e vigiando toda a terra  sua volta. Tmpera achou que devia ser uma fortaleza modernizada.
Descobriu no entanto que tinha sido construda pelo pai do duque no incio de 1880. Preocupado talvez em seguir a moda da poca, o
28sexto duque de Chevingham contratou um arquiteto italiano, que copiou o estilo de um dos mais famosos castelos da Itlia.
Juntos, o duque e o arquiteto, tinham escolhido o terreno, num ponto que dominava toda a costa. Situado no alto do monte, bem acima da pequena cidade de Beaulieu 
e do promontrio de Santo Hospcio, um dos lados do castelo Bellevue tinha uma encosta de cerca de trezentos metros, totalmente ngreme.
Dava a sensao de que a segurana do castelo estava ameaada, como se uma rajada de vento mais forte fosse suficiente para faz-lo rolar encosta abaixo.
Do outro lado, parecia bem mais seguro. Ali, as janelas estavam voltadas para o vale, onde se via ao longe o pico das montanhas. Os jardins que circundavam o castelo 
e desciam atrs pelo monte eram os mais bonitos, cuidados e exticos de toda a vizinhana. A primeira impresso de Tmpera, enquanto passavam por um caminho coberto 
de arcos com trepadeiras, era que estava no lugar com as mais belas cores do mundo e sentiu-se emocionada.
Nunca pensou que as buganvlias pudessem ter um vermelho to intenso e os gernios, tantos e to belos tons de rosa.
Lembrou-se do pai, ao ver os efeitos que os raios de sol e a sombra produziam nas paredes do castelo. Como aquela beleza toda o teria emocionado. Mais tarde, iria 
se debruar nas janelas que davam para o mar e contemplar a maravilhosa vista.
Desde que chegaram, s tinha tido tempo para se preocupar em encontrar o quarto de dormir da madrasta e deixar tudo em ordem para desembalar as roupas, assim que 
as malas aparecessem.
Lady Rothley foi ter com ela, logo que comeou a guardar as coisas.
 to emocionante, Tmpera! disse, assim que fecharam bem a porta do quarto. Vai haver uma pequena festa e  claro que irei acompanhando o duque. Havia um tom de 
excitao em sua voz, quando continuou: S vai haver mais um homem sozinho na festa:  lorde Eustace Yate, que tambm j chegou. Vi-o uma ou duas
29vezes em outras ocasies e vou fazer o possvel e o impossvel para mant-lo afastado.
Por qu? Sacudia um vestido que tinha ficado todo amarrotado, embora tivesse sido posto na mala com todo o cuidado e bem acondicionado entre folhas de papel.
Lorde Eustace  filho do duque de Tring, que teve que ir viver longe da Inglaterra, porque est totalmente falido.
Se lorde Eustace no tem dinheiro, certamente no nos interessa.
 isso mesmo que estou tentando lhe dizer. O problema  que ele  um homem extremamente atraente e interessante, e isso envolve uma mulher.
Se est to arruinado como o pai, no vai se interessar pela senhora.
No, a srio, claro. Ele est procurando uma esposa rica, todos sabemos disso, mas vai encontrar muita dificuldade para achar uma que o queira.
Por qu? perguntou Tmpera, enquanto tirava outro vestido da mala, satisfeita porque no precisaria ser passado a ferro.
Porque todo mundo sabe que  um joo-ningum, e nenhum pai, em seu juzo perfeito, vai permitir que a filha case com lorde Eustace, que nem sequer pode usar o ttulo, 
uma vez que tem um irmo mais velho. Apoiou a cabea entre as mos e disse, pensativa:
No creio que o duque o tenha convidado por pena. Bem, no importa. O fato  que serei seu par, j os outros todos so marido e mulher.
H lugar neste castelo para muita gente.
Isso s vem confirmar que o duque me convidou porque gosta de minha companhia. Levantou para se olhar no espelho e disse, impaciente: Pelo amor de Deus, Tmpera, 
faa alguma coisa no meu cabelo! Vou descer para encontrar o duque no terrao e pareo uma bruxa, depois dessa noite sem dormir.
 claro que no parecia nada disso, e as duas sabiam muito bem,
30mas Tmpera refez-lhe o penteado e lady Rothley passou uma camada discreta de p-de-arroz e um pouco de batom vermelho.
No ponha tanto batom!
Agora estamos na Frana, e a francesa usa e abusa de maquilagem.
Tenho certeza de que isso s serve para torn-las vulgares, e  justamente o que a senhora, como uma verdadeira dama inglesa, no pode fazer.
Ficou pensando que seria desastroso se as intenes do duque a respeito de sua linda madrasta no fossem as mais honestas. Quanto mais via tudo que ele tinha e melhor 
conhecia suas histrias, mais certa estava de que no tinha a menor inteno de casar.
A no ser, evidentemente, que tivesse se apaixonado perdidamente por sua madrasta, como havia acontecido com seu pai.
Lady Rothley estava extremamente bonita, pronta para descer para o terrao, e Tmpera no podia desfazer toda aquela alegria contando-lhe seus temores.
No esquea: ver e ouvir, minha querida lembrou Tmpera, antes de abrir a porta do quarto. No faa nenhum comentrio acerca dos quadros, antes que eu os possa ver 
primeiro e lhe ensinar o que sei sobre eles. Limite-se a comentar que so maravilhosos.
No vou esquecer.
Pode admirar o castelo, a vista, tudo. Mas lembre que, quanto menos falar, melhor. Olhe para o duque com adorao: h muito poucos homens que podem resistir a isso!
Ele  que devia ficar me adorando!
Eu sei, mas  um duque e, como tal, um ser  parte dos outros homens.
Eles ainda devem ter um corao batendo por trs do braso! respondeu lady Rothley, com inesperado senso de humor. Deu um sorriso e desceu.
Tmpera voltou a desfazer as malas, mas, por mais que tentasse, no conseguia deixar de se sentir apreensiva. A esperana era o duque
31achar Alaine deslumbrantemente linda, pois, melhor do que ningum, Tmpera sabia como a madrasta era ignorante, quando se tratava de manter qualquer conversa mais 
inteligente.
Achou melhor pensar que todos esses temores eram infundados. Tinha sido o primeiro duque o responsvel pela coleo de Chevingham. Talvez seu descendente no estivesse 
interessado nos tesouros que tinha nas paredes e em suas enormes manses.
Sempre que lady Rothley falava no duque, Tmpera tentava se lembrar de alguma coisa que o pai tivesse dito sobre ele. Infelizmente, no conseguia se lembrar de nada; 
possivelmente, nem se conheciam.
Lembrava que, depois da visita que fez a Chevingham, o pai comentou com ela e a me sobre a fabulosa coleo de Van Dycks que havia em uma sala e todos os superlativos 
com que descreveu a coieo de mestres flamengos que havia em outra. Mas todos os contatos tinham sido com o velho duque, porque o atual dono de Chevingham s usava 
o ttulo h quatro anos.
Essa informao tinha sido tirada do Debrett, que, salvo sua idade e nome completo, no dava muito mais esclarecimentos. Um dos nomes, descobriu divertida, era Velde. 
Tmpera achou que o velho duque tinha balizado o filho inspirado no famoso pintor holands, do qual possua algumas obras. Eram nada menos do que trs Van de Veldes, 
e Tmpera, assim que comeou a ouvir falar do duque, s desejava poder vir a conhecer todos os seus quadros.
Disse a si mesma que isso s seria importante se ele tivesse o mesmo gosto do pai, porque, nesse caso, desejaria que a esposa se interessasse por pintura tanto quanto 
ele. Suspirou. Era quase impossvel fazer a madrasta compreender pintura ou lembrar, por mais de dois minutos sequer, o nome dos artistas; muito menos, ser capaz 
de reconhecer o estilo de cada um..
Quando casou com sir Francis e estava ansiosa por agrad-lo, lady Rothley concordou em ir com Tmpera visitar a National Gallery. Mas meia hora depois, sentou-se 
numa cadeira e se recusou a ver fosse mais o que fosse.
32No vale a pena, Tmpera. Nunca conseguirei distinguir um quadro do outro e, para ser franca, isso me enjoa! Todos esses rostos afetados, essas paisagens sem relevo 
e essas deusas nuas me causam revolta no estmago! Seu pai quer que eu me mantenha bonita e que o admire sempre. Com o resto, no se importa nada.
Tmpera teve que concordar que era verdade, e assim desistiu de tentar educar a madrasta. Agora, lamentava a prpria falta de perseverana. S lhe restava rezar 
para que o duque no percebesse como ela era inculta.
Tenho que encontrar uma maneira de ir l embaixo e tentar ver os quadros. Se puder ensinar a Alaine, ao menos alguma coisa sobre um deles, pode ser que ela consiga 
impressionar o duque com esses conhecimentos e ele esquea o resto.
S que no ia ser fcil. Descobriu que o servio da casa, admiravelmente organizado pelo coronel Anstruther, era do mesmo gnero das casas inglesas, com a diferena 
de que todos os empregados, com exceo do mordomo, criados pessoais e o ajudante-de-campo do duque, eram franceses.
O coronel Anstruther tinha aprendido, com amarga experincia, que essas duas nacionalidades no conseguiam trabalhar juntas em paz; assim, os franceses eram mantidos 
 parte dos intrusos britnicos, como Tmpera tinha certeza de que eram chamados.
O coronel resolvera que as trs aias deveriam comer sozinhas numa pequena sala de jantar, enquanto que os empregados ingleses usavam outra em separado. A deciso 
provocou grande desaprovao das srtas. Briggs e Smith, que gostavam muito da companhia dos criados. Especialmente, de um dos criados pessoais do duque, que tinha 
senso de humor e as mantinha informadas de tudo que se passava com os convidados,
O sr. Bates, o mordomo, nunca fazia comentrios. Considerava-se acima de todos os demais empregados e andava pelo castelo com imponncia de um bispo. Mantinha todos 
na linha e inspirava tanto respeito, que at os franceses o temiam.
33Tmpera continuava informada do que ia acontecendo, atravs das aias. As duas eram muito conversadoras, e ela logo teve certeza de que lady Rothley no exagerou 
nada acerca de lorde Eustace Yate.
No ano passado, ele andou atrs da filha de lady Massingham disse a srta. Briggs. Mas sua senhoria percebeu logo a situao, mandou a filha para o norte e casou-a 
com o conde de Hincham.
Ele vai ter que arrumar uma americana comentou a srta. Smith, como quem faz uma grande proclamao.
A outra riu.
Voc no acredita que uma americana realmente com dinheiro vai se interessar por lorde Eustace, no? Pessoas como os Vanderbilt querem pelo menos um duque em troca 
de seus milhes.
Isso  a pura verdade, pensou Tmpera, lembrando que May Golet, que o pai dizia ser uma das mulheres mais ricas de Nova York, tinha casado com o duque de Roxburghe 
no ano passado. Outra americana, Helen Zimmerman, tornou-se a duquesa de Manchester em 1900, e Consuela Vanderbilt, a duquesa de Marlborough, quatro anos atrs.
Ela s havia se interessado por esses casamentos porque os jornais e revistas descreveram os quadros rarssimos que os noivos possuam. Tambm revelaram quantas 
obras de arte europeias tinham atravessado o Atlntico, compradas pelas famlias das trs noivas.
As herdeiras americanas tm dlares dizia a srta. Briggs, mas querem troc-los apenas por ttulos de nobreza.
Tmpera comeou a sentir pena de lorde Eustace, pois sabia muito bem o que significava a falta de dinheiro. Entendia que ele, como a madrasta e ela prpria, tentava 
se manter ligado ao grupo do duque, que tinha milhes para gastar.
Como lorde Holcombe, por exemplo, que tinha uma grande manso em Londres, uma casa de campo em Hampshire, um pavilho de caa em Leicester e tambm vrias propriedades 
na Esccia.
Tudo que ouvia das outras aias deixava-a mais tristemente certa de que ela e a madrasta estavam pedindo demais, quando esperavam que o duque fizesse uma proposta 
de casamento.
34Comeava a achar que tinha cometido um grande erro em no ter desencorajado lady Rothley de sonhar to alto.
Devia haver qualquer outro homem ntegro, que achasse que ela era o que um homem podia querer como esposa e que estivesse preparado para sacrificar a liberdade, 
coisa que o duque certamente no faria com algum to abaixo do seu nvel social.
Mas agora era muito tarde para se arrepender.
A nica coisa que posso fazer  rezar para que acontea um milagre e minha madrasta consiga o que quer.
Lady Rothley parecia continuar muito otimista, quando subiu para se arrumar para o jantar. Nunca esteve to bonita, como quando ficou pronta, com o vestido novo 
que Lucille tinha feito.
Na manh seguinte, estava ansiosa para contar a Tmpera como se divertira, a ateno que o duque lhe deu e que tinha sentado  sua esquerda durante o jantar.
Hoje  noite, vamos a uma festa em Monte Cario. Quando falei que no sabia jogar num cassino, ele disse que me ensinava.
Tmpera ficou horrorizada.
No pode arriscar o nosso dinheiro, minha querida.
No tenho a menor inteno de fazer isso. No sou to estpida como voc pensa! Se eu disser que no entendo como se joga,  claro que ele vai me mostrar como . 
Se perdermos, ele paga; se ganharmos, eu fico com o dinheiro.
s vezes, pensou Tmpera, h bastante astcia na linda cabea da sua madrasta. Embora questionasse a moral de semelhante atitude, sabia que, no caso delas, era de 
uma necessidade absoluta.
De qualquer forma, tinha que se assegurar de que Alaine no ia levar dinheiro nenhum na pequena bolsa de cetim que combinava to bem com o vestido que usaria.
O que  que vo fazer hoje? perguntou alto, enquanto via, disfaradamente, o que estava dentro da bolsa.
Vamos passear ao longo da costa no iate do duque. Almoaremos 
35a bordo e depois vamos dar uma olhada no cassino. Foi Dottie Barnard que insistiu nisso. Ela  uma jogadora inveterada.
A senhora d sua palavra de honra que no vai jogar, a menos que seja com o duque?
Claro que dou. Mas ele estar sempre conosco.
Ento, est bem disse Tmpera, mais descansada. Sentia-se uma perfeita fmea ansiosa, sempre que a cria estava longe de sua vista, mas sabia que no podia confiar 
que a madrasta no fizesse asneiras, simplesmente porque ela era muito bem-intencionada para dizer "no".
Ajudou-a a vestir um dos encantadores vestidos leves que tinham trazido de Londres e um pequeno colete e insistiu para que levasse tambm uma capa.
No mar faz frio frequentemente. Lembro que papai dizia que as tempestades no Mediterrneo se formam sem avisar ningum.
Se isso acontecer, morro. Odeio o mar, a no ser quando est calmo.
No diga isso ao duque. Tenho certeza de que ele gosta muito de velejar e ficaria aborrecido com uma mulher que enjoasse  primeira onda que visse.
No sou to tola como voc pensa respondeu lady Rothley, com ares de dignidade ofendida.
 lgico que no.
Inclinou-se para dar um beijo no rosto da madrasta, que a abraou, dizendo:
Tenho que dar graas a Deus por ter voc aqui.  to bom poder comentar as coisas. Com certeza cometeria milhares de erros, se no a tivesse aqui para me aconselhar.
Assim que sarem, vou l embaixo ver os quadros. Para facilitar as coisas, minha querida, pode esconder seu leno de mo num dos sofs, antes de ir para o iate? 
Ser a desculpa de que preciso, no caso de algum me encontrar na parte nobre da casa.
Farei isso. Mas, quando escolher o quadro do qual vou ter que
36falar, pelo amor de Deus, escolha um pintado por algum com um nome fcil de decorar. Sabe como embaralho tudo na cabea.
Vou escolher um bem fcil, fique sossegada.
Lady Rothley desceu tranquilamente a escada, levando luvas brancas, a bolsa de mo, um guarda-sol e o leno que a enteada lhe deu.
Tmpera arrumou meticulosamente as coisas da madrasta, colocou as escovas de cabelo e os pentes de prata em cima do toucador e, sentindo uma atrao irresistvel, 
foi para a janela.
 direita, podia ver o porto de Villefranche e desejou poder fazer parte do grupo que navegava agora para Monte Cario. Adorava o mar e, ao contrrio de Alaine, podia 
vir a ser uma boa marinheira. Ficou imaginando se teria alguma chance de visitar o iate do duque ou, talvez, quem sabe, dar o mesmo passeio.
Caiu em si e achou melhor parar de divagar.
 to maravilhoso estar aqui, poder ver flores e sol em vez do frio da Inglaterra. Como posso ser to ingrata e querer ainda mais?
no tinha o que fazer no quarto e resolveu aproveitar a oportunidade de os convidados estarem todos longe para ir ver os quadros.
Sentia-se nervosa, enquanto descia a escadaria principal para ir  sala de estar que a madrasta tinha descrito como muito agradvel.
Era bem mais do que isso. Enorme, as paredes brancas assim como o revestimento dos mveis e o carpete. No parecia com nenhuma que Tmpera tivesse visto antes. Havia 
uma proporo perfeita entre suas dimenses e as altas janelas viradas para o mar. Era o lugar ideal para se ter uma coleo de quadros. Passou uma vista de olhos 
nas pinturas e sentiu-se atrada imediatamente por um quadro maravilhoso de Sebastino Ricci, cujo esplendor s podia ser comparado a um enorme quadro de Rubens, 
na parede ao lado.
Havia um Poussin de que Tmpera gostava muito, mas seu preferido era o delicioso retrato de madame Bergeret, por Bouchet. O vestido estava pintado como s um mestre 
poderia ter feito e as rosas que se viam em primeiro plano eram to reais, que parecia que podiam ser colhidas da prpria tela.
37Tmpera foi vendo quadro por quadro. Percebeu, ento, que para aquela sala tinham sido escolhidos apenas quadros grandes, cujas cores realavam o branco da decorao.
Havia uma porta que dava para outra sala. Sentiu o corao bater mais forte, ao entrar naquilo que definiu como o santurio do duque. L estava uma coleo de pequenos 
quadros que a deixaram maravilhada. Era tudo branco novamente, carpetes e paredes, e havia uma rarssima escrivaninha de madeira embutida, mas foram os quadros que 
chamaram sua ateno. Tantos e to belos, que era difcil saber por onde comear a ver.
O que a atraiu primeiro foi So Jorge e o Drago, pintado por Giovanni Bazzi, uma pintura que o pai elogiava muito e que ela sempre desejou ver. O monstro estava 
dramaticamente virado de costas, enrolado sobre si mesmo, enquanto So Jorge o atravessava com a espada e seu manto vermelho esvoaava contra um estranho cenrio 
de rvores, castelos, barcos e cu.
 to maravilhoso, que no me importaria de ficar aqui admirando-o para sempre.
S ento, viu que havia outro So Jorge e o Drago quase ao lado. Era uma pequena pintura de Rafael, onde o santo, agora num cavalo branco, atacava o drago agonizante. 
Ao fundo, via-se uma mulher ajoelhada, rezando. Como papai teria adorado isto!
A seguir, viu um quadro que sabia bem teria encantado seu pai mais do que todos. Tinha certeza de que ele o mencionava, sempre que comentava a obra de Jan Van Eyck. 
Era uma delicada pintura chamada A Madona na Igreja. Parecia uma verdadeira jia, de to minuciosa.
Os raios de sol refletindo no cho de pedra, uma brisa suave soprando na semi-escurido e os desenhos formados por pedras preciosas transportaram Tmpera para um 
mundo divino. Sentiu toda aquela beleza penetrar em sua alma, como um blsamo.
Como  maravilhoso... inacreditavelmente maravilhoso! disse
38em voz alta, pensando como ia ser difcil explicar tudo aquilo  madrasta.
Nenhum ser humano podia possuir coisas to raras e preciosas e no ser influenciado por elas.
Toda a obra de Van Eyck reflete uma grande sensibilidade costumava dizer seu pai.
Mas aquilo era mais do que sensibilidade; era espiritualidade. Tmpera daria tudo para poder ao menos ficar vendo todos aqueles quadros raros o resto da vida.
Lembrava de o pai dizer que algumas das telas de Jan Van Eyck tinham a inscrio "Ais Ik Kan" feita pelo artista. A frase era um provrbio flamengo que significava: 
"Como fao, no como deveria fazer".
Talvez a frase seja uma grande verdade para todos ns, pensou Tmpera. Ficou admirando o quadro algum tempo. Depois,  medida que via os outros, foi tendo uma agradvel 
sensao de tranquilidade. Para sua surpresa, na parede em frente da poltrona estava um quadro que reconheceu como A Virgem das Pedras, de Leonardo da Vinci.
O pai tinha dito, quando a levou ao Louvre:
s vezes penso, Tmpera, quem  que voc me lembra. Agora sei:  assim que voc ser, quando for mais velha. Apontou para o anjo de da Vinci.
Percebia agora que realmente se parecia mais com o anjo. No entanto, era um retrato irreal, e estava certa de que no podia aspirar a ser to bela.
Reconhecia, no entanto, certa semelhana no formato do rosto, no pequeno queixo, nos cabelos repartidos ao meio, nos olhos grandes e meigos e nos lbios cheios. 
Tambm o corpo esbelto e o longo pescoo, delicado e etreo, eram como os dela.
Gostaria de saber por que o duque tinha aquele quadro. Era estranho que, numa sala cheia de originais, ele colocasse uma cpia.
A primeira vez que Tmpera tinha visto A Virgem das Pedras foi no Louvre, embora houvesse uma verso do mesmo quadro na National 
39Gallery. Ia sempre admir-la com interesse, mesmo sabendo que o original autntico era o que estava na Frana.
O anjo das duas verses era bastante parecido, s que o do Louvre tinha um brilho e umas cores translcidos que faltavam na verso da National Gallery.
 estranho, muito estranho, que o duque tenha isto aqui. Voltou para observar outra vez o quadro de Van Eyck e decidiu
que seria aquele que ia descrever para a madrasta. Restava apenas escolher as palavras adequadas para ela expressar a sua admirao. Poderia dizer ao duque:
Sabe de qual dos seus quadros gosto mais?
Ele ficaria surpreso por Alaine ter escolhido algo to pequeno e delicado, uma vez que ela era o oposto, tanto que a achava parecida com um modelo de Ticiano.
Repetindo mentalmente tudo que a madrasta devia dizer. Tmpera voltou para cima, levando o leno que fingia estar procurando.
Jurou a si mesma que haveria de encontrar uma maneira de ir ver os quadros novamente, observ-los como o pai fazia e sentir tudo que transmitiam.
Todos os bons quadros tm uma mensagem para dar dizia sir Francis frequentemente. No os veja s com os olhos, Tmpera, mas sinta-os com todos os sentidos e com 
o corao, e, principalmente, deixe-os penetrar bem fundo na alma.
Era o que tinha que tentar fazer agora, pois no voltaria a ter uma oportunidade igual.
 noite, as trs aias se reuniram na sala que lhes tinha sido destinada. Havia pratos franceses e ingleses  escolha e, enquanto as srtas. Briggs e Smith cheiravam 
urn que lhes parecia desconhecido, Tmpera deliciava-se com mussels marinires e galinha  provenal.
Vou deitar disse a srta. Briggs, no fim da refeio. Nunca durmo durante as viagens e, depois de ter tirado tudo das malas, sinto-me completamente exausta!
40Vou dormir um pouco tambm. A outra levantou. Esta noite, ficaremos acordadas at de madrugada.
Vocs no se deitam, at as patroas voltarem? perguntou Tmpera.
 evidente! falaram as duas ao mesmo tempo, olhando para ela com um ar chocado.
Voc no acha possvel sua senhoria se despir sozinha, acha? perguntou a srta. Briggs, sarcstica. Nenhuma boa aia faz isso, ou permite que uma simples criada v 
ajudar.
Na ltima vez que estivemos aqui, ficava acordada at as seis da manh quase todas as noites contou a srta. Smith. Amanhecia sempre, antes de sua senhoria voltar 
para casa. Sempre achei isso ridculo na idade dela! A outra riu.
Ningum consegue tirar minha patroa do cassino, enquanto no perder o ltimo tosto. S se o cassino fechar antes disso.
Vocs devem se sentir muito cansadas no dia seguinte comentou Tmpera, com simpatia.
E como!  por isso que, se quer seguir o meu conselho, srta. Riley, durma sempre que tiver uma oportunidade. Aqui, pelo menos, as camas so confortveis.
Quero outra cadeira no meu quarto disse a srta. Briggs, desejosa de encontrar uma falha no servio impecvel do castelo. J pedi uma s empregadas francesas, mas 
no entenderam. Tenho que ver se o sr. Bates fala com o coronel Anstruther. No tenho a menor inteno de ficar desconfortvel.
Tmpera sorriu, pensando que ali ningum podia se sentir sem conforto. Assim que as duas saram para os quartos, foi tambm para o seu, mas no pde dormir.
Tinha colocado na mala uma caixa de tintas e uma pequena tela, que ocupavam muito pouco espao. Gostava de pintar quando o pai era vivo, e ele a tinha encorajado, 
pagando-lhe lies, desde que era suficientemente crescida para segurar um pincel.
Sabia que nunca viria a ser uma grande artista, mas adorava pintar
41e, como tinha estudado a tcnica de vrios mestres, podia fazer uma obra agradvel e bonita.
Estava decidida a levar pelo menos uma recordao do sul da Frana. Colocando uma capa, saiu por uma das portas laterais, para conhecer o jardim.
Nunca imaginou que pudesse haver jardim to bonito e extico. Pelo que sabia, o velho duque tinha sido aconselhado pelos mdicos a viver no sul da Frana, por causa 
da avanada idade, e ento encomendou plantas de todas as partes do mundo.
Havia azalias do Himalaia, lrios das ndias Ocidentais, orqudeas da Malsia, alm de uma profuso de flores inglesas. Estas, especialmente as rosas e os amores-perfeitos, 
tornavam-se mais viosas e maiores no clima semitropical.
Como os jardins ficavam numa encosta, foi fcil planejar cascatas brotando de figuras de pedra, descendo at lagos cheios de peixinhos dourados, lrios e outras 
plantas aquticas, de onde as guas caam novamente encosta abaixo, dentro de uma lagoa cercada de plantas e fetos, de uma beleza estranha.
Havia ciprestes escuros e altos como sentinelas guardando o caminho, e, surpreendendo quem passava, uma esttua de mrmore chocantemente branca, contrastando com 
o escuro das rvores, evocava um antigo deus grego.
Tmpera sentiu-se nas nuvens. De vez em quando, passava por jardineiros, que diziam "bonjour m'mselle", e ela respondia tambm em francs.
De repente, j bem longe do castelo, chegou a um pequeno canteiro com arbustos cercando uma parede de pedra, cheio de clematites, lrios
e rosas.
As flores atraam borboletas e abelhas e formavam um quadro to lindo, que Tmpera sentou-se num banco de mrmore, sentindo-se transportada para um mundo que s 
seu pai entenderia.
Vendo as flores  sua frente, achou que era aquilo mesmo que
42tinha que pintar. Os lrios e as rosas eram tantos e to magnficos, que lhe lembravam a madrasta.
Junto deles estavam umas florzinhas delicadas e bem recortadas, cujo nome no conhecia, mas que davam ao conjunto uma luminosidade encantadora.
Abriu a caixa de tintas, procurou as que iria precisar e tirou os pincis. Gostaria de ter um cavalete, mas se contentou em pr a tela sobre os joelhos.
Comeou a pintar.
No alto do quadro, colocou os lrios, depois as rosas, e foi acrescentando as outras flores. Por fim, lembrou o que os mestres de natureza-morta faziam e pintou 
as borboletas, as abelhas e uma gota de orvalho numa ptala aveludada.
Tinha tirado o chapu porque estava sentada na sombra e, por causa do calor, desabotoou o colarinho do austero vestido. Atenta ao trabalho, esqueceu-se do mundo 
e do tempo.
J deviam ter passado umas trs horas, ou mais, quando ouviu uma voz atrs dela.
Isso  muito bom!
Parou e virou a cabea. Estava to absorvida, que demorou alguns segundos para lembrar sua posio no castelo ou fazer uma ideia de quem seria o homem.
Era alto, bronzeado, vestindo uma roupa branca e a olhava com uma expresso divertida. Era muito bonito e tinha qualquer coisa de indecifrvel que o tornava diferente 
de todos os outros homens. Qualquer coisa inexplicavelmente diferente.
Olhou-o, sem conseguir falar. Ficaram se encarando durante bastante tempo, antes que ele falasse:
Deixe-me ver o que fez, certamente no estilo de De Heemor Boosschalert.
No... no posso aspirar to alto respondeu Tmpera, sem perceber por que  que as palavras no lhe saam com facilidade. ... como fao... mas... no como devia.
43Disse a frase automaticamente, porque ainda tinha na lembrana o quadro de Van Eyck. Ao ver a surpresa no rosto do homem,  que lembrou, de repente, do papel que 
desempenhava ali no castelo.
Ds... desculpe. Acho que no devia estar aqui.
Quem  voc?
Eu... eu sou a aia de lady Rothley.
Ento,  minha convidada tambm. E posso lhe garantir que estou encantado que tenha desejado pintar minhas flores.
Tmpera arregalou os olhos. Ento, era o duque! O duque... e ela no tinha percebido!
Ps-se de p e disse, incoerentemente:
Tenho que... pedir perdo a Vossa Senhoria... mas... mas eu no... no sabia quem o senhor era.
No h razo para que soubesse. Mas, sem querer ofend-la, no acha que  muito talento para uma simples aia?
Enquanto falava, tirou o quadro das mos dela.
Pinto s para distrair, senhor. Fechou a caixa de tintas e colocou o chapu.
Deve continuar. Confesso que estou surpreso por ter escolhido imortalizar as flores. A maioria dos artistas vem aqui para pintar a paisagem.
As flores so... mais fceis.
Tenho a impresso de que esse no  o verdadeiro motivo de t-las escolhido.
Tmpera no tinha nenhuma resposta para dar e, passado um instante, disse:
Eu... eu acho... que  melhor voltar... para o castelo. Sua senhoria pode precisar de mim.
Sua senhoria ainda est em Monte Cario. Voltei mais cedo porque no gosto de jogar. Se quer continuar pintando, no h pressa nenhuma.
Acho melhor acabar em outra ocasio. Isto , se no estou abusando da gentileza de Vossa Senhoria, vindo aqui.
44Meu jardim  todo seu. Posso lhe pedir para me vender o quadro, quando estiver pronto?
No!
Tmpera tinha ficado to surpresa, que a recusa veemente saiu sem querer.
O duque baixou os olhos, fazendo de conta que tinha ficado magoado, e ela disse, hesitante:
Estou... muito grata pelo generoso pedido, mas reconheo minha pouca aptido para pintura. Como j deve ter percebido bem.
Ele sorriu, dando a entender que sabia o que ela queria dizer.
Se comparar seu trabalho com as obras-primas que tenho nas paredes,  claro que no. Mas, s porque pintou esta tela em meu prprio jardim, e tambm porque sempre 
quis ter um quadro com as minhas flores, ficaria feliz se pudesse compr-lo.
Tmpera desviou o olhar. Passado um momento, ele perguntou, num tom diferente:
Quem sabe, voc no me oferece a tela como presente? Como no respondesse, acrescentou: A no ser,  claro, que queira d-lo a algum eleito pelo seu corao.
No... no  nada disso.
Ento, posso ficar com ele?
Se... isso lhe d prazer, senhor.
Ficaria muito agradecido, e gostaria de lhe pedir que pintasse uma outra parte do jardim.
Tmpera sacudiu a cabea, confusa.
No? Mas, por qu?
Era difcil perceber o sorriso disfarado de Tmpera, ao responder:
Porque  a nica tela que tenho, senhor, e gosto realmente de pintar.
Olhou-a para ver se falava a srio e perguntou:
No me diga que pretende apagar tudo e pintar outra coisa?
Exatamente.  o que fao sempre com meus quadros. Pelo menos assim, no deixo nenhuma prova da minha falta de talento.
45Mas isso  errado. Completamente errado. Examinou a tela que tinha nas mos. Aqui est o seu quadro, e posso comprovar que tem todo o talento e os meios para pintar 
muitos mais, enquanto estiver em minha casa.
Tmpera olhou-o, sem saber o que dizer ou fazer. Aquilo no se encaixava no jogo que estava fazendo.
Devo lhe dizer que, sendo patrono de diversas artes e considerado uma autoridade no assunto, nunca tive a oportunidade de oferecer uma tela em branco a um artista.
Ento, talvez seja melhor Vossa Senhoria no o fazer agora.
Por que no? S lhe peo uma coisa em troca daquilo que chama de generosidade: que eu possa ver seus quadros, quando estiverem terminados.
Eu... eu preferia... que no os visse.
Quero ver. Acho que tem um raro talento, srta...?
Tmpera... Riley.
Tmpera. Um nome fora do comum, assim como tudo em voc. Tenho certeza de que no  preciso lhe dizer que seu estilo de pintura  caracterizado por um brilho e uma 
luminosidade que no se consegue, usando tcnicas habituais.
Prefiro essas tintas: so mais resistentes do que a pintura a leo normal.
Enquanto falava, pensou que tinha sido uma idiota por no ter trocado o primeiro nome. Tmpera, obviamente, era o tipo de nome que s um artista se lembraria de 
dar  filha. Tinha sido muito indiscreta, respondendo ao duque sem pensar bem primeiro no que ia dizer.
O duque riu.
Nunca encontrei ningum chamada Tmpera.  um nome delicioso e to original como a dona.
No quero ser mais nada do que sou; sentir-me bem e tratar de minha senhora como ela deseja ser tratada. Foi um grande privilgio vir para o sul da Frana, senhor, 
e espero que nada do que disse tenha parecido uma... impertinncia de minha parte.
46Nada disso aconteceu, srta. Riley.
S me resta agradecer todo o encorajamento que me deu. Tmpera fez uma ligeira reverncia e subiu para o castelo pelo caminho ladeado de ciprestes.
Enquanto caminhava, tinha a sensao de que o duque a seguia com o olhar e fez um grande esforo para no se virar para trs. S quando teve certeza de que j no 
podia ser vista  que correu, perguntando a si mesma como tudo aquilo podia ter acontecido. Como  que foi capaz de falar a uma pessoa to superior num tom to pouco 
cerimonioso?
No mnimo, ele ia achar que era uma aia um pouco estranha. No convinha que suspeitasse dela ou da madrasta.
Seria bem melhor no ter vindo disse, em voz alta, mas sabia que no era verdade.
47CAPTULO III
Tmpera chegou ao castelo sentindo-se confusa, sem conseguir pensar com coerncia.
Como  que tinha sido capaz de falar ao duque de maneira to reveladora?
Por outro lado, era difcil que ele encontrasse alguma ligao entre ela e seu pai. E, afinal, mesmo uma aia, assim como qualquer outra pessoa, podia ter talento 
para pintar.
Esses pensamentos no conseguiam tranquiliz-la. Durante todo o tempo que esperou que lady Rothley voltasse de Monte Cario, no fez outra coisa, seno recordar a 
conversa e desejar que no tivesse acontecido.
Sem dvida, o duque era o homem mais bonito e atraente que j
48tinha visto. Ao primeiro olhar, percebeu que haviam nele qualquer coisa que o faria sobressair, mesmo numa sala cheia de homens igualmente distintos.
O pai dele era o responsvel pela maior parte da coleo de quadros. Nada mais natural do que a apreciasse, mas isso no queria dizer que fosse um perito e uma autoridade 
no assunto, como tinha sido o pai dela, cuja opinio era respeitada no mundo inteiro.
Se o duque tambm fosse um profundo conhecedor de pintura, certamente no apreciaria seus quadros, to amadores.
Olhou para a tela inacabada. Apesar de boa, no poderia nunca chegar sequer aos ps dos grandes mestres da natureza-morta como Jan De Heem, que o duque tinha mencionado.
Podia capt-los de certa maneira, mas s porque tinha tido bons professores.
Sou uma farsa, pensou. E em mais de um sentido. Era uma falsa pintora e uma falsa aia. Se o duque fosse perspicaz, certamente teria percebido isso.
Sentiu as pernas tremerem, s com essa ideia.
Se tivesse estragado as possibilidades da madrasta, nunca se perdoaria.
Andava de um lado para o outro no quarto de lady Rothley e, pela primeira vez desde a chegada ao castelo, a vista l fora no lhe despertava nenhum interesse.
Tudo que queria no momento era encontrar uma explicao razovel para a madrasta dar, caso o duque mencionasse o assunto, o que, tinha certeza, iria acontecer.
Lady Rothley chegou alegre e excitada com o dia agradvel que tinha passado.
O iate do duque  fantstico!  enorme e muito confortvel. Monte Cario  exatamente como eu esperava. Oh, Tmpera, como estou me divertindo!
O duque veio para casa s.
Como  que sabe? Ele disse que odiava Monte Cario e ficou no
49iate. Quando acabamos de visitar o cassino, havia carruagens  espera para nos trazer de volta. Tmpera respirou fundo.
O duque me encontrou no jardim e falou comigo.
Ah, ? perguntou lady Rothley, imperturbvel. Ento, voc viu como ele  atraente! No cassino, estava outro homem incrvel que vem aqui esta noite.
Acho que no est entendendo o que quero dizer, minha querida. O duque me encontrou pintando no jardim e acho que deve estar pensando que  uma atividade muito pouco 
frequente numa aia.
Por que  que voc no devia pintar, se gosta tanto? perguntou lady Rothley, olhando-se no espelho. Afinal, todas as aias bordam. No vejo muita diferena entre 
uma coisa e outra.
Acho que tenho medo de que ele possa descobrir de quem sou filha.
Ele s mencionou o nome de seu pai uma vez. Mesmo assim, para dizer que o velho duque tinha uma grande admirao por ele. Acho mesmo que nunca se conheceram. Alm 
do mais, no me parece que se interesse por voc. No complique as coisas, Tmpera. Acho timo que ele se interesse pelo seu gosto pela pintura; assim, no repara 
tanto na minha ignorncia!
Riu, mas Tmpera continuava sria.
No leve tudo na brincadeira, minha querida. O duque provavelmente vai comentar o assunto e j pensei no que deve responder.
O qu?
A senhora precisa dizer que me conhece muito mal, que fui recomendada por uma amiga na ltima hora. Seja bem natural e diga que, inclusive, nem sabe se vai me manter 
a seu servio.
No h a menor dvida. Porque, se eu tivesse que dizer a verdade, diria que no consigo fazer nada sem voc!
Por favor, querida, preste ateno no que estou dizendo. O duque tem razes para ficar curioso; alm do que aconteceu, sou bem diferente das aias normais.
50Pensava no anjo do quadro, que o pai achava que se parecia com ela, o quadro que estava bem em frente da cadeira do duque.
Ser que ele tambm encontraria alguma semelhana?
Era uma hiptese to remota, que no valia a pena sequer consider-la.
Ser que o duque a tinha observado to bem, a ponto de comparla com a obra de um dos maiores mestres de todos os tempos?
De repente, sorriu, dizendo:
Tem razo, minha querida: estou fazendo uma tempestade num copo d'agua. Encare o que o duque lhe disser sobre mim com toda a naturalidade, porque o que tenho mesmo 
de importante para lhe dizer  que...
O conde me encheu de atenes interrompeu lady Rothley, com ar sonhador, e Tmpera teve certeza de que no tinha ouvido nada do que lhe disse.
Por favor, preste ateno. Quero falar sobre o quadro que a senhora deve descrever ao duque.  um Jan Van Eyck. Sei que vai lembrar do nome.  maravilhoso, simplesmente 
maravilhoso!
Essa foi a maneira como o conde me descreveu. "Voc  maravilhosa", ele disse. "O brilho do sol personificado."
Tmpera tentou outra vez:
A senhora no est ouvindo? Lady Rothley levantou-se do toucador.
E no quero ouvir, Tmpera. Estou cansada e com dor de cabea. Voc pode falar do quadro em outra ocasio.
Mas eu queria que conversasse com o duque sobre o quadro hoje  noite, durante o jantar.
No vamos jantar aqui. Vamos a Monte Cario, jantar com a princesa Daisy de Pless. Soube de lady Holcombe que ser uma festa muito chique. Tenho que levar meu melhor 
vestido.
Tmpera desistiu de falar com a madrasta. Talvez seja mais fcil amanh, pensou, enquanto ajudava lady Rothley a se despir para descansar pelo menos uma hora antes 
do jantar.
51Assim que Tmpera acabou de jantar, foi para o quarto, acabar o quadro que tinha comeado no jardim.
Os lrios e as rosas j estavam prontos; as outras flores, apenas esboadas. Felizmente, encontrou flores iguais nos vasos no quarto da madrasta.
Pegou, colocou-o em cima do toucador e, sentada na cama, tentou transferir para a tela a textura e a cor das flores.
Podia entender por que o duque tinha ficado surpreso por no ter escolhido pintar a paisagem, mas adorava quadros de flores.
Foi um de seus professores que a encorajou a pintar flores, em vez de retratos e paisagens. A me tinha vrios quadros dela no quarto.
Certamente, estes tambm so vendveis, no? a madrasta havia perguntado, logo aps a morte do pai, quando tiveram que vender a maioria das obras de arte.
Receio que no. No futuro, sero a nica decorao que poderemos ter em casa.
Pois acho que so muito bonitos disse lady Rothley, sinceramente. Muito mais bonitos do que algumas dessas telas que pertenciam a seu pai.
Tmpera tinha rido e beijado a madrasta, embora no interpretasse sua opinio como um cumprimento, mas como uma demonstrao de ignorncia.
Agora, olhava para a tela e lembrava que o duque a tinha admirado.
Ele estava apenas sendo amvel, disse a si mesma.
Mas no havia nenhuma razo para ele ter que ser amvel com uma desconhecida sem importncia, mesmo antes de saber que ela no passava de uma empregada.
Quem sabe, posso ganhar algum dinheiro pintando, quando voltarmos para Londres?
Naquele momento, percebeu que no tinha nenhuma esperana de que os planos das duas dessem certo. A madrasta era suficientemente bonita, mas o duque, sendo inteligente, 
com certeza ia querer uma mulher que tambm o fosse, para poder conversar.
52De repente, achou que estava se deixando levar pelo pessimismo. Afinal, seu pai era um homem muito culto tambm e tinha sido bem feliz com a segunda esposa. Tratava-a 
como se fosse uma criana. No havia dvida de que ficava extasiado por sua beleza, mas vrias vezes Tmpera reparou que no prestava muita ateno no que ela dizia.
Era quase noite, quando acabou de pintar e foi para o quarto da madrasta.
Vou esperar pela senhora tinha dito antes de Alaine sair. As outras aias esperam acordadas pelas patroas e ficariam muito chocadas se soubessem que no fao o mesmo.
Eu ia at seu quarto acord-la para me ajudar a tirar o vestido, como sempre fiz disse lady Rothley. Mas aqui, o melhor que voc tem a fazer  deitar na minha cama 
e dormir at eu chegar.
Se algum me visse, acharia que estava cometendo um crime, de lesa-majestade!
Feche a porta  chave. Falarei alto ao subir a escada para voc acordar e baterei de leve na porta.
Tmpera deu-lhe um beijo.
A senhora  muito gentil e atenciosa.
E no devia ser? Voc  um anjo para mim, Tmpera, e acho que hoje estou to bonita porque voc conseguiu tornar meus cabelos sedosos.
No exagerava. Estava realmente linda, mais bonita do que o prprio modelo de Ticiano.
Divirta-se, e no esquea de dar ateno ao duque.
Se o conde estiver l, vai ser muito difcil no prestar ateno aos seus galanteios disse, para irritar Tmpera. Mas, assim que reparou no olhar da enteada, corrigiu, 
depressa: No se preocupe. Sei muito bem que sou uma isca e que o duque  o peixe que procuramos. No que depender de mim, ele no escapar.
Riu e desceu a escada levando a bolsa de cetim, de onde a enteada tinha tirado todo o dinheiro.
53Tmpera deitou na cama da madrasta, mas, como estava nervosa e excitada, no conseguia dormir.
Levantou e foi para a janela. O cu estava cheio de estrelas e o luar refletia no mar calmo. Era um cenrio to bonito, que no entendia por que no havia milhares 
de artistas transportando toda aquela beleza para suas telas.
Embaixo, viam-se as luzes de pequena cidade de Beaulieu, e uma ou outra luz aparecia entre as rvores do promontrio de Santo Hospcio.  direita, em Villefranche, 
viam-se ancorados no porto os iates e os navios iluminados.
 tudo to belo, tranquilo e calmo, pensou. Isto  um pedacinho de Deus; meus problemas parecem agora to insignificantes! Sem dvida, vo se resolver por si mesmos.
Ficou olhando o mar durante muito tempo.
Quando voltou para a cama, sentia como se mos cheias de paz tivessem tocado sua cabea, e adormeceu imediatamente.
De manh, enquanto tomavam caf, as outras duas velhas aias resmungavam sobre a hora tardia que as patroas tinham chegado.
 sempre a mesma coisa, quando vimos para o sul disse a srta. Briggs. Se isso continuar, tenho que dizer  sua senhoria que vou embora.
Tanto a srta. Smith quando Tmpera sabiam bem que isso no aconteceria. A mulher j estava com lady Holcombe h doze anos, e sempre se deram muito bem.
Tmpera gostava das duas. Tinha certeza de que nunca desrespeitaram a tica profissional, deitando na cama das patroas, como ela havia feito.
Como a madrasta previa, ela acordou imediatamente, assim que ouviu vozes na escada, abrindo a porta do quarto, antes de Alaine chegar ao patamar.
Enquanto dava boa-noite a lady Barnard e lady Holcombe, Tmpera pde espreitar os senhores que estavam no hall.
54Um deles, sem sombra de dvida, era o duque, alm de ser mais alto do que os amigos, transmitia uma segurana que os outros decididamente no tinham.
Lady Rothley entrou no quarto, e Tmpera no conseguiu ver mais nada.
Quando a acordou na manh seguinte, a madrasta ainda estava com sono, mas continuava encantada com seu sucesso na vspera.
Dezenas de pessoas me cumprimentaram, e no tenho vergonha de dizer que fui uma sensao. Sei que fui!
Fico muito contente, minha querida, mas agora tome o caf, enquanto est quente. O chefe est escandalizado, porque as senhoras pedem tambm um pequeno almoo, embora 
esteja habituado a servilo para os homens.
Lembrei de uma coisa: ontem, ganhei um bocado de dinheiro.
Vou contar e veremos exatamente quanto ganhou.
Sabia que a madrasta no entendia muito da moeda francesa; como eram praticamente do mesmo tamanho, confundia um franco com uma libra.
Est tudo na minha bolsa de cetim. Tmpera deu uma olhada no quarto,  procura.
No tenho certeza, mas me parece que no trazia nada, ontem  noite.
Se no est aqui, devo ter deixado l embaixo. Tenho certeza de estar com ela na carruagem.
Foram todos para a sala, quando chegaram?
Sim. Os homens tomaram champanhe e eu, um copo de limonada.
Ento, deve ter ficado l.
V l embaixo busc-la, depressa. Seria desastroso se algum dos empregados a roubasse.
No me parece muito provvel. Todos os empregados franceses esto aqui h anos, e o coronel Anstruther tem absoluta confiana neles.
55Tinha certeza de que ningum ia roubar uma coisa to pequena, numa casa onde havia antiguidades que valiam milhares de libras. Mas, para tranquilizar a madrasta, 
foi  sala, procurar a bolsa, pedindo a Deus para no encontrar o duque.
No havia ningum. Os hspedes que j tinham levantado deviam estar no terrao do lado do castelo, afastado das janelas principais.
Pegava a bolsa da madrasta, numa mesinha ao lado do sof, quando algum entrou na sala. Virou-se, esperando ver o duque, mas era outro cavalheiro, tambm bonito, 
mas muito diferente daquele que, intimamente, desejava encontrar.
Olhou-a, sorrindo de um modo simptico.
- Quem  voc? No me parece t-la visto antes.
Tmpera respondeu, com uma ligeira reverncia:
Sou a aia de lady Rothley, senhor.
Achou que devia ser lorde Eustace Yate, porque j conhecia os outros convidados da estao Vitria.
As srtas. Briggs e Smith tinham dito a verdade sobre ele. Ele era um bonito homem, mas havia qualquer coisa em sua aparncia que revelava bem o carter. Talvez um 
certo ar de desordeiro, no sabia direito.
Uma aia... e muito bonita! disse, num tom que chocou Tmpera.
Segurando a bolsa da madrasta, dirigiu-se para a porta, mas lorde Eustace bloqueou-lhe o caminho.
No tenha pressa. Gostaria que me falasse um pouco sobre voc. Quantos namorados tem? Gosta do calor do Mediterrneo?
Muito, senhor. Se me permite, sua senhoria est esperando.
Sua Senhoria pode esperar!  um prazer olhar para voc, tanto quanto para sua patroa. Isso a surpreende?
Tmpera sentiu que ele se aproximava e, empertigando-se at conseguir olh-lo bem nos olhos, disse, calmamente:
No me surpreende nada, senhor. Est perfeitamente de acordo com tudo quanto tenho ouvido falar de sua senhoria.
56Aproveitou o ar confuso dele para sair.
Enquanto subia a escada, ouviu lorde Eustace rir.
Aqui est sua bolsa disse, ao entrar no quarto da madrasta. Encontrei lorde Eustace na sala. A senhora dever evit-lo:  um mau carter, como as outras aias j 
tinham me dito.
Todo mundo sabe disso muito bem, mas tambm  divertido. Sir William, por exemplo, mesmo com todo o dinheiro que tem, no passa de um maante.
Tmpera riu.
No se pode ter tudo na vida.
No, mas confesso que acho muito complicado conversar com o duque tambm.
Tmpera sentou na beira da cama:
Querida,  preciso que aprenda de uma vez por todas alguma coisa sobre o quadro.
Lady Rothley deu um gritinho e tapou os ouvidos.
No quero saber do quadro. Parecia uma criana mimada. Quero falar sobre mim e sobre todos os galanteios que me fizeram ontem  noite. Sabe o que  que o conde disse?
Tmpera levantou-se.
No quero ouvir falar no conde, nem sobre qualquer outro homem que tenha conhecido em Monte Cario. Veio at aqui por uma nica razo e para isso gastamos todo o 
nosso dinheiro.
Voc no est sendo gentil comigo. Veja quantos francos ganhei! Houve uma hora em que eram muitos mais, mas o duque continuou jogando.
No adiantava contradiz-la. Por mais que dissesse, a madrasta s ia pensar em si mesma e em como sua beleza lhe abriria as portas do mundo.
Os francos que tinha ganho equivaliam a umas quinze libras. Embora no fosse uma quantia astronmica, na situao em que estava, j era uma boa ajuda. Pensando assim, 
Tmpera guardou o dinheiro em lugar seguro.
57O que  que vo fazer hoje? perguntou, enquanto preparava o banho da madrasta.
Vamos almoar na manso Rothschild.
Oh, minha querida, estou to emocionada que voc tenha a oportunidade de ir l. Por favor, veja tudo muito bem para depois me contar. Papai no falava em outra coisa, 
quando voltou para casa, e at me mostrou reprodues de alguns quadros e mveis franceses maravilhosos que eles tm. Falou tambm sobre Waddesdon, a casa que os 
Rothschild construram em Buckinghamshire. Tem um maravilhoso...
Parou, ao ver que falava para as paredes, porque Alaine no tinha ouvido uma s palavra. Tentou novamente:
Vou contar uma histria que vai diverti-la. Vai lembrar dela, quando cumprimentar Alice Rothschild no jardim.
Lady Rothley parecia um pouco entediada, mas Tmpera continuou:
Aconteceu durante uma visita da rainha Vitria  manso. Para fazer uma surpresa  rainha, a srta. Rothschild mandou construir uma estrada larga em trs dias apenas. 
Sabe o que isso significou? Aplanar terreno, construir muros de suporte, separar os paraleleppedos e desviar o curso de um riacho!
Agora, a madrasta prestava ateno.
Quando a rainha visitava os jardins, passou por cima de um viveiro de flores recm-plantadas. A srta. Rothschild sentiu-se ultrajada e explodiu: "Saia da imediatamente!"
E a rainha ficou zangada?
No. Fez o que ela mandava e, depois disso, passou a se referir a Alice Rothschild como: "a toda poderosa!"
 uma histria engraada comentou lady Rothley, que adorava estar a par dos mexericos sociais. Ser que o duque j sabe?
Deve saber, mas, se ele contar, faa de conta que ainda no a tinha ouvido.
58 essa altura, a madrasta j estava pronta. Um empregado bateu  porta para avisar que a carruagem esperava.
Passava do meio-dia, hora que Tmpera devia ir almoar com as outras aias.
Quando chegou, j estavam acabando a refeio e apressadas para ir para o quarto deitar.
Felizmente, pde almoar em paz, deliciando-se com o queijo curado que a srta. Briggs achava repugnante e com a salada que as outras duas nem sequer tinham tocado.
No existe ningum no mundo mais conservador que os empregados ingleses, pensou Tmpera, com pena de que o pai no estivesse ali para darem boas risadas.
O que mais sentia falta era do senso de humor do pai. Ele via sempre o lado divertido das situaes, mesmo as mais desastrosas, e contava-lhe muitas gafes que tinham 
sido cometidas em casas como as dos Rothschild, que sempre achavam saber mais do que o resto da humanidade.
Assim que chegou ao quarto, Tmpera viu um grande embrulho em cima da cama. No se surpreendeu quando abriu e encontrou meia dzia de telas. Eram todas pequenas, 
mas muito bem-emolduradas e de boa qualidade.
O duque no esqueceu.
Receosa, lembrou que o presente era sob condio de mostrar as pinturas a ele.
Na noite anterior, quando acabou de pintar o quadro que tinha comeado no jardim, achou que j estava pronto, mas agora, vendo bem  luz do dia, notou que ainda 
precisava de uns pequenos retoques.
Tenho que voltar ao jardim  mesma hora de ontem. Assim, terei certeza de que as cores esto exatas.
Sabia que no ia encontrar o duque. Todo o grupo tinha ido almoar na manso Vitria, como os Rothschild passaram a chamar a propriedade, depois da visita da rainha.
59Tmpera estava certa de que seria um banquete inesquecvel, pois os Rothschild tinham fama de receber muito bem.
Posso ir descansada, no h ningum no castelo. Se o duque quer ver este quadro, tem que estar perfeito.
Pegou a capa e foi depressa para o jardim, porque, alm de terminar o quadro, ainda queria ver a cascata e admirar tranquilamente as montanhas cheias de neve ao 
longe.
As flores que tinha pintado estavam totalmente abertas, mas Tmpera ia improvisar para que os lrios parecessem mais translcidos e as rosas, com uma cor mais rica. 
Tinha receio de estar retocando demais. Isso, como o pai dizia, era um erro lamentvel que muitos artistas cometiam.
Encolheu os ombros, pensando que o duque iria dar apenas uma olhadela no quadro e deix-lo de lado.
Parou de retocar as flores, deixando-as como estavam. Voltou ento para o castelo, admirando o jardim, como ainda no tinha feito antes.
Era to bonito, to perfeito, que no entendia como  que algum que possua um osis podia sair dali para ir a qualquer outro lugar.
Voltou para casa, achando que j tinha se distrado bastante e precisava cuidar de muitas coisas da madrasta.
Estava tudo tranquilo. O nico barulho que se ouvia era o zumbido das abelhas, esvoaando pelo terrao.
O coronel Anstruther e o resto do pessoal deviam estar repousando um pouco, pois no se via viva alma.
Confiando na intuio, foi at o estdio do duque. Colocou o quadro em cima de uma cadeira e, seguindo um impulso momentneo, escreveu a lpis atrs do quadro o 
provrbio flamengo que fan Van Eyck usava: "Ais Ik Kam."
O duque entenderia que ela tinha feito o melhor que podia.
Era uma situao meio inslita, uma pintura amadora, no meio das maiores obras-primas da humanidade. Assim que colocou o quadro num lugar onde o duque no poderia 
deixar de reparar, foi ver novamente a Madona e achou-a ainda mais bonita do que antes.
60Perto, encontrou um delicado leo de Petrus Cristus. Era o retrato de uma jovem, um quadro pequeno e cujo autor, provavelmente, tinha sido discpulo de Jan Van 
Eyck.
Ainda havia muito mais quadros que pretendia ver detalhadamente, mas o tempo estava passando e no queria que o coronel ou outra pessoa qualquer a encontrasse ali.
Olhou mais uma vez para o retrato do anjo.
Se sou realmente parecida com ele, devo ficar muito, mas muito orgulhosa mesmo, pensou, com um suspiro.
Ia saindo, quando se arrependeu de ter deixado o quadro. E se o duque o mostrasse aos convidados? E se o ridicularizassem? E se ele comentasse alguma coisa e os 
outros empregados pensassem que ela queria chamar a ateno?
De repente, achou que era uma idiota, agarrou o quadro e, apertando-o contra o peito, saiu correndo para o quarto.
Olhou para as telas em branco e sentiu que no tinha o direito de aceit-las e, menos ainda, de se envolver com o duque.
O melhor era voltar para seu mundo. Ele logo esqueceria o encontro do jardim e isso era o melhor que podia acontecer.
Escondeu as telas dentro de um guarda-roupa para que as arrumadeiras no as vissem, e ento deitou e fechou os olhos.
Embora tivesse dormido bastante antes de a madrasta voltar, estava muito cansada. Acordou com a sensao de ter sonhado com o duque.
Estou ficando obcecada por ele. Tenho que lembrar que a nica pessoa que realmente importa  minha madrasta e que essas conversas sobre pintura com o duque no vo 
ajud-la em nada. Tenho sido muito tola.
Quando Alaine chegou, encheu-a de atenes, como para se desculpar.
Tudo que lady Rothley queria era algum a quem pudesse contar o sucesso que tinha feito na festa dos Rothschild. S quando acabou de contar pormenorizadamente tudo 
que tinha acontecido  que Tmpera pde perguntar, ansiosa:
O que achou da manso?  muito bonita? Percebeu que a madrasta fazia Um esforo para lembrar.
A casa estava superlotada, como uma indigesto de pat de fgado.
Tmpera riu.
A senhora no seria capaz de inventar isso. Quem  que inventou?
Lady Rothley sorriu.
O duque. Ele fez esse comentrio quando vnhamos para casa. Lorde Eustace olhou para mim e disse, significativamente: "Alguns pats so to deliciosos, que nunca 
nos fartamos deles!"
Era totalmente intil tentar obter mais alguma informao da madrasta sobre a manso e no valia a pena incomod-la mais. Tmpera resolveu ento ouvir todos os mexericos 
que lady Rothley tinha acumulado sobre as pessoas importantes com quem esteve no almoo e em Monte Cario.
Vai haver outra festa esta noite. Acho que voltaremos de madrugada, porque sempre que vamos jantar fora acabamos no cassino. Quem sabe, no vou ganhar outra vez? 
disse, com os olhos brilhando.
A senhora no vai jogar a no ser que o duque pague.
L h outros homens ainda mais ricos.
No perca tempo com eles. Mantenha-se perto do duque e lembre-se que todos os homens que a cortejam moram aqui e ns vamos voltar para Londres.
No esqueci isso disse, com pouca convico, mas voc tem que concordar que  timo ser o centro das atenes, saber que todos esto me olhando, desejosos de me 
tocar. Recostou-se nos travesseiros. Em certas ocasies, sinto que estou realmente apaixonada, e isso  uma sensao nova para mim.
Concentre toda essa emoo no duque aconselhou Tmpera, fechando as cortinas. Veja se consegue dormir.
62Acho que sim. Comi e bebi tanto, que estou com um sono incrvel.
Tmpera fechou a porta devagar e foi para seu quarto, preocupada com a madrasta. Se continuasse a comer e beber daquela maneira, os vestidos novos logo no serviriam 
mais.
Por enquanto, no tinha engordado muito, pois, quando ficou pronta para o jantar, parecia que tinha sado do quadro de Ticiano. Com os ombros brancos envoltos em 
tule e a cintura fininha estava perfeita e desejvel.
Tmpera soube pelas aias que todas as outras senhoras morriam de inveja de lady Rothley.
Principalmente lady Holcombe: ela tambm era considerada uma beldade, mas seus cabelos ruivos e olhos verdes amendoados eram completamente eclipsados pelo fulgor 
de Alaine.
Tente descansar como ontem sugeriu a madrasta, carinhosamente, antes de sair do quarto. Acho muito egosmo de minha parte fazer com que fique acordada at eu chegar. 
Mas fique descansada: assim que me tornar duquesa, vou compens-la por tudo que tem feito por mim.
Cruze os dedos! Tmpera riu. Sabe bem que d azar falar nas coisas, antes de acontecerem.
Lady Rothley beijou-a e saiu. Tmpera arrumou o quarto, tirou as roupas que tinha para lavar e foi jantar.
As duas aias mais velhas estavam mais irritadas do que nunca.
Est fazendo calor demais para mim resmungou-a srta. Smith. Como disse  sua senhoria esta manh, no  a melhor poca para vir para o sul. Devamos ter vindo logo 
depois do Natal, quando ainda venta um pouco.
Eu gosto do calor disse a srta. Briggs, mas s quando no tenho que trabalhar. A simples ideia de pegar num ferro de engomar me deixa doente.
A outra inclinou-se sobre a mesa e confidenciou:
63Soube que h uma mulher no castelo que pode passar toda a roupa para ns, em troca de uns poucos cntimos.
 bom saber disso.  a mesma que lava a roupa? A srta. Smith fez que sim com a cabea.
Pensei que j soubesse que ela faz isso, uma vez que j esteve no castelo antes.
No toquei no assunto, porque pensei que ela tivesse ido embora.
A srta. Briggs estava com um ar to culpado que a outra aia e Tmpera tiveram certeza de que sabia muito bem e que havia guardado a informao s para ela.
Dei-lhe uma blusa de minha patroa para passar, e uma hora depois estava pronta e impecvel.
Pelo que vejo, tenho que reatar nosso conhecimento a srta. Briggs comentou, de um tom to artificial, que era evidente que j tinha feito isso.
Tmpera, no entanto, sabia que ela e a madrasta no podiam gastar dinheiro em coisas que ela mesma podia fazer. Parte das quinze libras que lady Rothley tinha ganho 
na noite anterior devia ser gasta em material para renovar os vestidos que a madrasta j havia usado ou mesmo para comprar algum novo.
Essas coisas eram muito mais baratas na Frana do que na Inglaterra; por isso, logo que tivesse uma oportunidade, pediria ao coronel Anstruther para ir at Beaulieu 
ou, melhor ainda, a Nice. As outras empregadas haviam comentado que um landau ia frequentemente levar o pessoal s compras.
Acabou de lavar e estender a roupa ntima da madrasta no fim da tarde. Os ltimos raios de sol e as luzes ao longe, nas montanhas, formavam um cenrio lindo.
Recordou toda a beleza da noite anterior, quando ficou na janela, vendo o mar banhado pelo luar.
Decidiu que, naquela noite, depois que todos sassem, iria passear at o penhasco, de onde se via a orla martima.
64Das janelas, tinha reparado que havia um caminho at l, onde um muro de tijolos, coberto de buganvlias, protegia o mirante. Era impossvel ir para aqueles lados 
durante o dia porque o caminho ficava bem visvel para quem estivesse no terrao. Mas,  noite, s os empregados e o coronel Anstruther estariam no castelo, e eles 
sempre se deitavam cedo; assim, no havia nenhum problema.
Estava uma noite agradvel. Tmpera trocou o vestido preto que usava durante o dia e que pensava ser o uniforme adequado  sua posio por um de musselina lils 
que ela mesma tinha feito depois da morte do pai.
Saiu sem que ningum a visse e se encaminhou para o mirante, levando um xale de l, no caso de o tempo arrefecer.
Enquanto caminhava, desapareciam os ltimos raios de sol, ficando a terra naquela penumbra translcida que separa o dia da noite.
A primeira estrela brilhou no cu e havia uma estranha luminosidade no ar, como se a noite derramasse uma fora mgica sobre os mortais adormecidos.
O perfume das flores era muito intenso e, a cada passo, Tmpera sentia que penetrava num mundo encantado que lhe era totalmente desconhecido.
O caminho agora era mais estreito, ladeado de arbustos- cobertos de flores perfumadas, chegando a uma escada que passava por baixo de um tnel de folhagens.
Alcanou finalmente uma plataforma de mrmore com quatro delicadas colunas gregas que suportavam um telhado plano. Uma balaustrada de ferro forjado protegia do precipcio 
e havia um banco de onde se podia observar o mar e o porto de Villefranche  direita, e  esquerda o rochedo de Eza.
Tudo era maravilhoso. Tmpera suspirou de felicidade. Sentia-se como os deuses do Olimpo deviam se sentir ao contemplar a humanidade.
Olhou para as estrelas e rezou, agradecendo por ter sido trazida, to inesperadamente, quele lugar encantado.
65Sabia que era o momento em que devia seguir o maior conselho do pai: olhar, ver e sentir.
Aquele era o tipo de paisagem que os grandes mestres tinham tentado eternizar, mas, mesmo com toda sua genialidade, no conseguiam igualar a perfeio da natureza.
Tudo aquilo fazia Tmpera ter a mesma sensao que experimentou ao ver a Madona, como se aquela beleza penetrasse na alma, respondendo a todos os seus anseios, como 
nada antes tinha conseguido.
No fazia menor ideia de h quanto tempo estava ali, num sonho que ora parecia um estado de xtase, ora uma prece. Os ltimos vestgios do dia tinham desaparecido, 
dando lugar a uma noite com a lua cheia e repleta de estrelas.
Estava to absorta que ficou confusa, quando ouviu passos e uma sombra escura se colocou entre eles e o cu. Por um momento, no soube se era real ou parte da sua 
imaginao.
Imaginei que ia encontr-la aqui disse uma voz que reconheceu imediatamente. No acredito que algum que goste de pintar resista a esta paisagem.
Tmpera no respondeu. O duque no devia estar ali. Algo dentro dela preveniu-a para levantar e ir embora.
Ele sentou-se a seu lado e Tmpera virou o rosto para olh-lo, desviando logo o olhar, timidamente.
E quem  que voc acha que podia pintar semelhante beleza? Ela no pde deixar de responder, honestamente:
Acho que s Turner conseguiria fazer-lhe justia.
Est pensando no Luar de Greenwich?
Estou. Mas isto aqui  muito mais bonito.
Concordo. Talvez Turner pintasse melhor o amanhecer.
O amanhecer e os monstros marinhos murmurou Tmpera e estremeceu. Se j voltaram... sua senhoria deve estar precisando de mim.
Tentou levantar, mas o duque segurou sua mo.
S eu voltei. No gosto de jogar, prefiro ver o luar.
66O toque da mo dele fez que Tmpera sentisse uma estranha emoo e seu corao batesse descontroladamente. Era uma expectativa, ou talvez muito mais do que isso.
Seus pensamentos a assustaram e, passado um momento, disse:
Tenho... tenho que agradecer a Sua Senhoria... as telas.
J acabou o quadro?
Tive esperana de encontr-lo esperando por mim. Vai deixar que eu o veja, no ? Lembre que esta foi a condio que impus.
Tirou a mo do brao dela, e Tmpera sentiu uma vontade absurda de pedir que a deixasse ficar.
Eu... coloquei o quadro na sua escrivaninha esta tarde, mas... tirei-o de l novamente.
Por qu?
Achei que todos os quadros que l estavam iam olhar para o meu com desdm.
No acredito que exista um grande mestre que alguma vez tenha desprezado um aluno esforado e dedicado.
No questiono isso, mas garanto que desdenhavam os que eram presunosos.
Sei que isso voc no ser nunca.
Mais uma vez, Tmpera achou a conversa estranha e imprpria para ter com o duque.
Quero ver o quadro pronto. Se no me mostrar at amanh, no ter cumprido sua promessa.
No  possvel que lhe interesse tanto! Tem quadros belssimos, perfeitos! Eu daria tudo na vida para poder contempl-los e entender tudo que transmitem.
As palavras saram irrefletidamente. Mal acabou de falar, tornou a sentir que estava sendo inconveniente.
Qual o quadro que mais a atrai?
Ficou sem saber o que responder, porque dizer a verdade era. de certa forma, trair a madrasta.
67Diga! insistiu o duque. Quero saber.
Havia um tom de comando em sua voz. Essa firmeza a fazia estremecer, ao mesmo tempo que, involuntariamente, era obrigada a responder.
Isso tinha acontecido desde a primeira vez que o encontrou; comportava-se de maneira errada, no conseguia deixar de falar com ele, inconscientemente revelava os 
pensamentos mais ntimos, perdia o controle sobre si mesma.
Como se percebesse que o tom autoritrio a tinha magoado, ele pediu, amvel:
Estou esperando. Diga, por favor. Era impossvel resistir.
A Madona na igreja.
Mesmo sem olhar, percebeu que ele sorriu.
J devia ter imaginado.  o meu preferido tambm. Fui eu que o comprei, no pertencia  coleo de meu pai.
H qualquer coisa nela... algo... diferente.
Eu sei. No  nada que se possa exprimir com palavras, mas est l. Sei que ns dois sentimos a mesma coisa.
Talvez os artistas como Van Eyck pintassem o que viam, no com os olhos, mas... com a alma.
Tmpera no entendia por que tentava explicar o que o duque j tinha dito que era inexplicvel.
Virou a cabea e reparou como ele estava perto, podendo ver bem seu rosto ao luar.
Olhos nos olhos, Tmpera sentiu que o olhar dele penetrava bem dentro dela, numa perfeita unio espiritual.
Ficou em silncio por um longo momento, at que, fazendo um grande esforo, levantou e disse:
Eu... tenho que ir... senhor. Obrigada por sua gentileza, mas j  tarde.
No  to tarde. Alm disso, no existe a mais remota possibilidade de algum ter voltado do paraso dos jogadores.
68O tom de desprezo era bem claro, e Tmpera sentiu-se culpada. Sabia que o duque no gostava de jogar e tinha deixado a madrasta ir para o cassino. Ela devia ao 
menos ter voltado com ele. Era a segunda vez que o deixava sair sozinho do cassino.
Em que  que est pensando? perguntou o duque.
No posso...  difcil dizer o que estou pensando, senhor.
Ento, no diga. E tambm no tem nada que agradecer. O mar e o luar so livres para quem os sabe interpretar.
Pela maneira de falar, ou talvez por estarem to perto, Tmpera teve conscincia, pela primeira vez, de que eram um homem e uma mulher e estavam sozinhos.
Com medo dos prprios sentimentos, voltou depressa para o castelo.
Subitamente, comeou a correr, em pnico.
69CAPTULO IV
No quarto s escuras, depois de ter ajudado a madrasta a deitar, reviveu todos os minutos do encontro com o duque.
Seu procedimento tinha sido desastroso, principalmente em relao ao quadro. Por que  que no aceitou simplesmente a amvel oferta das telas e no lhe mostrou a 
pintura das flores depois de pronta?
Teria sido muito mais fcil, se no se comportasse como uma menina de escola, infantil e pateta.
Tudo que devia ter feito era deixar o quadro na escrivaninha. E, se o duque quisesse ficar com ele, no criar problemas.
O pai teria ficado furioso, se a ouvisse dizer que no sabia pintar, alm de todas as outras bobagens que havia dito. Ele no tinha nenhuma considerao pelos artistas 
que menosprezavam o prprio talento, na esperana de serem elogiados.
70No h nada mais irritante do que a falsa modstia costumava dizer. Prefiro mil vezes-os que apregoam seus talentos aos quatro ventos.
Tmpera sempre ria ao ouvir isso.
No acredito, papai! Voc simplesmente arrasaria quem se gabasse de uma pintura que no achasse suficientemente boa.
Um artista tem que ter confiana em sua arte respondeu, evasivo.
Agora, percebia bem o que o pai queria dizer. Estava sendo excessivamente humilde, em vez de dar a seu trabalho o justo valor, como o duque aparentemente tinha feito.
Seu maior erro foi confundir uma atitude generosa e amvel de um nobre para com um plebeu com uma conversa de igual para igual.
Foi tudo errado, desde o primeiro momento disse para si mesma, sentindo-se infeliz.
Por outro lado, era bastante honesta para reconhecer que tinha sido uma delcia ficarem juntos ao luar, desfrutando uma vista maravilhosa, com o mesmo estado de 
esprito. Certamente, nenhum dos homens que a madrasta conhecia tinha uma sensibilidade parecida com a do duque. S que no devia se interessar por ele, nem mesmo 
superficialmente.
Aparentemente, no somos da mesma classe social; por isso, acho que no vou estragar as chances de Alaine. Mas, seja como for, desviar a ateno dele  muito perigoso.
Ficou se debatendo na cama, tentando encontrar uma sada para aquela complicao toda.
Era loucura pretender que no tinha despertado o interesse do duque; afinal, no era todo dia que se encontrava uma aia pintando to bem. Alm disso, sempre que 
estavam juntos, discutiam pintura, o que a madrasta nunca conseguiria.
No posso v-lo outra vez, pensou, ao mesmo tempo em que se revoltava com a ideia.
O melhor que tinha a fazer era ser prtica. Em primeiro lugar,
71cumprir a promessa em relao ao quadro. E esperar que o duque, depois de receb-lo, o guardasse numa gaveta e esquecesse o assunto.
Quanto mais cedo entregasse o quadro, melhor. Como todos os homens, ficaria irritado, se no conseguisse o que queria.
Arrependeu-se tarde demais de no o ter deixado na escrivaninha da primeira vez.
No conseguia dormir e j era tarde, quando decidiu o que fazer. Antes que algum levantasse, iria l embaixo colocar o quadro na sala do duque. E faria o possvel 
para evitar outro encontro. Assim, no haveria possibilidade de ele pedir para ver mais alguma de suas pinturas.
Sabia que isso tinha que ser feito bem cedo, porque, durante o dia, corria o risco de algum a ver. No gostaria de ter que contar tudo  madrasta, e a simples ideia 
de voltar a encontrar lorde Eustace a fazia estremecer.
Sabia que o duque, sempre preocupado com o bem-estar dos convidados, tinha dado ordens para que os sales que ficavam embaixo dos quartos no fossem limpos muito 
cedo, para no acordar ningum.
Um resto de luar iluminava tenuamente o hall, quando Tmpera se esgueirou pelo corredor e chegou ao topo da escada. Parecia um fantasma, andando no escuro com um 
xale branco sobre a camisola. Pensou, divertida, que, se alguma das empregadas a visse, gritaria de susto.
Seu quarto ficava em frente dos aposentos dos empregados e normalmente ouvia quando eles levantavam. Naquele momento, tudo ainda estava em silncio, sentindo apenas 
um delicioso aroma de lrio no frescor da madrugada.
Atravessou o cho de mrmore sem fazer barulho. Em vez de entrar no gabinete do duque pela porta que dava para o hall, preferiu ir pela sala de estar. As cortinas 
estavam fechadas, mas a pouca claridade que passava pelas frestas era suficiente para ver o caminho.
Os quadros de Rubens e de Ricci formavam duas manchas escuras,
72contrastando com a parede branca, bem diferente das cores brilhantes que tinham  luz do dia.
Contornou os sofs e poltronas e se dirigiu para a porta que dava para o gabinete. Pensava em colocar o quadro na escrivaninha, apoiado no grande tinteiro de prata. 
Ficou imaginando quanto tempo levaria para o duque descobrir a frase que tinha escrito na tela.
Ia entrando, quando percebeu que havia algum no gabinete. Parou, sentindo o corao bater com fora, sem saber se de medo ou de ansiedade.
Como uma das cortinas estava aberta, pde ver claramente que o homem em p, de costas viradas para ela, no era o duque. Pelo formato da cabea, reconheceu lorde 
Eustace. Ficou petrificada, incapaz de se mexer e de respirar. P ante p, voltou para a sala de estar e correu escada acima.
Chegou ao quarto quase sem flego.
Lorde Eustace! E ela, vestida daquela maneira, com uma camisola transparente!
Sabia perfeitamente qual teria sido a reao dele, e o pior de tudo  que a culpa seria inteiramente dela.
Provavelmente, ele estava sem sono e desceu. Tinha certeza de o ouvir ir para o quarto, quando a madrasta chegou, porque todos se despediram na escada.
Boa-noite, lady Holcombe tinha dito lady Rothley, aumentando um pouco a voz, para Tmpera ouvir e acordar.
Boa-noite. Estou certa que se divertiu muito hoje. Havia inveja no tom de lady Holcombe, principalmente no "se divertiu".
Muito respondeu Alaine. Boa-noite, lady Barnard.
Boa noite, querida. Voc fez muito sucesso. Todos que no a conheciam ainda me perguntavam quem era.
Muito obrigada,  muito amvel.
Lady Rothley entrou, jogou a capa em cima da cama e foi se olhar no espelho. Tmpera ouviu a voz do duque e ficou prestando ateno.
73Boa-noite, George disse para lorde Holcombe. Boa-noite Eustace.
Boa-noite, Velde.
Espero que esteja confortvel na torre.  onde costumo dormir sempre: tem uma vista melhor do que qualquer outro quarto do castelo.
Sua hospitalidade  sempre incomparvel, Velde respondeu lorde Eustace. Minha nica tristeza  que, embora dormir na torre me faa sentir o prprio rei, tambm aumenta 
minha solido.
O duque riu.
Lamento, mas o que est lhe faltando  o nico conforto que no posso proporcionar!
Riram os dois e se afastaram conversando, mas Tmpera j no conseguia entender o que diziam.
Agora, imaginava se ele no tinha conseguido dormir porque se sentia s. Fosse qual fosse a razo, ele tinha descido, e s por muita sorte no a viu.
Outro que tenho que evitar disse baixinho. Deitou, mas no conseguiu dormir.
Passou a manh inteira tentando descobrir uma maneira de colocar o quadro na escrivaninha do duque.
Tinha o desagradvel pressentimento de que, se o coronel Anstruther visse, ia perguntar o que  que o quadro estava fazendo ali e ficou arrepiada, s em pensar que 
algum podia descobrir que ela pintava ou que tinha prometido dar a tela ao duque.
De certa forma, sentia que ele respeitaria seus sentimentos e no comentaria nada sobre seu talento com o coronel e, menos ainda, com os outros convidados. Mas no 
podia ter certeza.
Tinha uma srie de coisas da madrasta para arranjar. A barra de um dos vestidos estava descosturada e o mais caro de todos os modelos
a que Lucille tinha feito estava com uma ndoa. Precisava ser removidacom muito cuidado para no manchar o resto do tecido, e isso levaria tempo.
Naquela manh, lady Rothley estava sonolenta como nunca. Sempre tinha sido indolente; os nicos exerccios que fazia eram danar ou passear, e ainda por cima no 
estava acostumada a deitar to tarde.
Ser que vou poder ficar na cama at tarde, hoje? perguntou, assim que acabou de tomar caf.
Tmpera ficou horrorizada.
Como  que sugere semelhante coisa? Sabe que cada hora, cada minuto,  precioso! E ouvi dizer que hoje vm visitas para o almoo.
Lady Rothley deu um gritinho.
Mas  claro! E o conde me disse, ontem  noite, que tinha sido convidado! Que maravilha! J me sinto melhor. Vou tomar banho, e voc depois me penteia. Quero ficar 
linda.
Quem  esse conde, afinal? J falamos nele tantas vezes, mas nunca soube o nome.
Tem um nome terrvel, que nunca consigo pronunciar direito. Acho que ... Caravargio... conde Vicenzo Caravargio. Italiano. Cus, que-palavra complicada!
Tem certeza?
Claro que tenho.
Mas Vicenzo Caravargio era amigo de papai.
Eu sei. Ele me disse.
Nesse caso, minha querida, tem que ter muito cuidado com o que disser, porque ele me conhece.
Acho que no lembra. Nunca me falou de voc, s de seu pai. Parece que tinham os mesmos gostos.
 claro que tinham disse Tmpera, sem muita pacincia. No sabe que o conde tem uma das maiores colees de esculturas de toda a Itlia? A manso Caravargio, perto 
de Roma,  famosa, quase to famosa como a Borghese. Papai falava nisso frequentemente.
No me interessa nada a coleo dele. E se voc comear a descrever esse monte de esttuas, vou gritar! Estou interessada  no
75homem. Se pudesse ouvir as coisas maravilhosas que ele me diz com aquela pronncia latina...
Minha querida, tome cuidado. Ouvi papai falar no conde desde pequena. Sei que casou muito cedo e creio que, talvez por isso, foi muito infeliz. Est vivo h dez 
ou quinze anos e posso apostar que no quer casar outra vez.
Certamente que no me falou em casamento; s em amor.
Como  que pode dar ateno a essas coisas? Sabe muito bem que h centenas de homens querendo ter um romance com a senhora, porque  bonita. Mas o que interessa 
 um marido.
Eu sei. Voc tem razo, Tmpera. Mas os maridos nunca conseguem dizer as coisas fascinantes que o conde diz.
Tmpera juntou as mos, com desespero.
J no sei o que fazer para abrir seus olhos. Sabe por que estamos aqui. Sabe que o duque est interessado na senhora; do contrrio, no a teria convidado. E agora, 
perde tempo com esse italiano, que no deve ter a mnima inteno de casar.
Lady Rothley parou de se olhar no espelho e virou-se para a enteada.
Voc  to doce e sensvel, Tmpera, mas est tentando acabar com a minha alegria, e estou me divertindo tanto!
Parecia uma criana a quem recusavam outro sorvete. Mas Tmpera no se comoveu; pelo contrrio, continuou, muito sria:
Quero que seja feliz, querida; quero que tenha toda a alegria e divertimento do mundo. Mas, neste momento, no pode ser. Lembre que, quando chegarmos em casa, teremos 
uma srie de contas  nossa espera: impostos, o ordenado de Agnes, oh... meu Deus, um milho de outras coisas!
Lady Rothley foi at a janela, olhando o mar, sem apreciar a vista.
Posso dizer a verdade, Tmpera? Sinto uma atrao enorme pelo conde. Maior do que j senti por qualquer outro homem.
Mas ele  italiano... catlico. No vai casar com a senhora. Pode pedir apenas para que seja sua amante.
Acho que vai pedir, e sei de antemo qual ser minha resposta 76No posso acreditar!
Tmpera estava chocada. No havia dvida sobre isso e seu tom de voz fez com que a madrasta se virasse para ela. Abraou-a, dizendo: No me olhe desse jeito. Estou 
errada, sei que estou, mas no posso fazer nada. Toda a minha vida, tenho sido uma mulher fria. Pensei que amava meu primeiro noivo; gostava dele e chorei muito, 
quando morreu, mas nunca senti nada com seus beijos.
Fez uma pausa e, sem olhar para Tmpera, continuou:
Quando encontrei seu pai e ele se apaixonou por mim, pensei que seria maravilhoso me tornar lady Rothley. Alm disso, achava Francis um homem encantador e tinha 
muita admirao por ele.
Tmpera queria pedir para parar com aquele assunto, mas no conseguiu falar.
Eu era dedicada a ele Alaine continuou, em voz baixa. Francis me dava segurana. Eu nunca tinha sabido antes o que era ser importante e conhecer pessoas de alta 
sociedade.
Por favor, minha querida... Tmpera no queria ouvir o resto, mas percebeu que a madrasta no estava conversando, apenas desabafando o que lhe ia na alma.
Quando me amava, gostava de lhe dar prazer. Sempre julguei que o papel da mulher era ser condescendente. Nunca me passou pela cabea que viesse a sentir o que sinto 
agora. Quando o conde conversa comigo, arrepios de excitao percorrem meu corpo; quando me beija a mo, s tenho vontade que beije a boca e que... Voc ainda  
muito nova, Tmpera, para ouvir essas coisas. Mas s vezes acho que  bem mais madura do que eu, que, na verdade, no passo de uma menina que ainda no descobriu 
que j  uma... mulher. Calou-se de repente e comeou a chorar.
Tmpera, o que  que vou fazer?
Era impossvel no lhe dar apoio. Foi para junto da madrasta e a abraou.
No chore, minha querida. Vamos arranjar uma sada para tudo isso.
77Mas como? Como? Voc tem toda razo: ele no quer casarj comigo... mas eu o amo! Essa  a verdade. Eu o amo desesperadamente, irracionalmente, tanto que no consigo 
mais pensar direito.
No poderia haver nada mais desastroso para acontecer naquele momento. Alaine nunca chorava, e v-la assim cortava o corao.
Limpou as lgrimas que corriam por seu rosto, enquanto falava como se faz a uma criana:
No chore. Assim, vai ficar com os olhos inchados! O conde e o duque estaro no almoo, ambos admirando-a, achando que a senhora  a mulher mais bonita do mundo, 
e no pode desapont-los".
E supondo que nenhum dos dois me oferea... nada?
Acho que podemos ter certeza de que, pelo menos o conde, vai oferecer alguma coisa. Ele  muito galanteador, e no h nada que a impea de continuar ouvindo seus 
galanteios, mesmo depois de se tornar duquesa.
Como  que posso casar com outro homem... se  a ele que... amo?
Podia fingir que era sofisticada, querer fazer parte de uma sociedade onde as senhoras casadas tinham amantes, porque os casamentos aristocrticos eram por interesse 
e no por amor; mas, agora que estava apaixonada, comportava-se como qualquer burguesa honesta faria.
Durante todo o tempo que Tmpera levou para vesti-la, falou do conde, descrevendo, entusiasmada, todo o seu encanto, ou apreensiva e desiludida porque sabia que 
no podia ter esperanas.
Foi Tmpera quem decidiu encaminhar a conversa num sentido prtico.
O que  que vai fazer, minha querida, se o conde pedir para ser seu amante?
Lady Rothley no respondeu.
A senhora sabe to bem como eu que, se aceitar, sua posio na sociedade ficar arruinada para sempre. No pode ser amante do conde e depois voltar para a Inglaterra, 
como se nada tivesse acontecido. Por tudo o que me tm contado, os romances desse tipo entre os aristocratas 
78so sempre extremamente discretos. Os dois envolvidos encontram-se sempre em festas para as quais foram convidados juntos e todo mundo finge que no sabe de nada.
Isso  verdade.
Quando a ligao termina, voltam para os respectivos maridos e esposas, como se nada tivesse acontecido.
Como lady Rothley no fez nenhum comentrio, Tmpera continuou, mais positiva:
Mas a senhora no tem nenhum marido, ningum para proteger do escndalo, quando se descobrir que vive com um homem to importante e conhecido como o conde.
Ele no me deixaria... sem um tosto disse lady Rothley,
quase sem voz.
Pode ser que a deixasse apenas com dinheiro, mais nada. E para que serviria o dinheiro, quando no voltasse a ser convidada para os bailes, recepes e festas de 
que gosta tanto? Sabe perfeitamente que as portas de casas como a do duque estaro fechadas.
Tudo que acaba de dizer  verdade, mas eu o amo. Tmpera, eu o amo!
Antes que comeasse a chorar outra vez, Tmpera consolou a madrasta e fez-lhe um novo penteado.
Esquea o futuro e aproveite o presente. A senhora foi um sucesso ontem  noite. Desa e v ver o sucesso que far hoje tambm. Como papai costumava dizer, quando 
estava irritado: "Amanh ser o dia do juzo final, mas que se dane!"
Tmpera!
Lady Rothley ficou chocada, mas depois comeou a rir.
Oh, como gosto de voc! Ser que existe no mundo algum que tenha uma enteada mais doce e adorvel do que a minha? Mudou de humor rapidamente. Seu rosto estava animado 
e os olhos brilhavam. Est um dia lindo, somos convidadas de um duque e tenho um conde querendo me amar. Que mais uma mulher pode desejar?
Nada. A no ser to bonita como a senhora.
79Vou descer e ofusc-los! Sinto um prazer enorme de saber que, se Rosie Holcombe pudesse, me arrancaria os olhos, de tanta inveja!
Tmpera riu, mas assim que a madrasta saiu do quarto, ficou preocupada com o que acabava de acontecer.
Tentou lembrar de tudo que o pai lhe tinha dito sobre o conde.
Tinha estado com ele umas duas ou trs vezes, mas certamente no tinha prestado muita ateno nela, pois ainda era uma mocinha, na poca. Mesmo assim, era melhor 
que no a visse novamente.
Pensou pela primeira vez como seria desastroso se algum descobrisse que lady Rothley tinha usado a prpria enteada como aia. Seria um prato cheio para toda aquela 
gente que no tinha nada para fazer e adorava mexericos. Iam distorcer tudo e transformar numa histria em que a madrasta m oprimia e maltratava a pobre borralheira,
Tenho que me manter afastada do conde, do duque e, principalmente, de lorde Eustace.
Essa deciso foi reforada, quando ouviu os comentrios das outras aias durante o almoo.
Soube que lady Holcombe tinha perdido uma grande quantia jogando bacar na noite anterior e que ela e o marido discutiram por causa disso. Por outro lado, sir William 
Barnard ganhara uma pequena fortuna, mas teve aborrecimentos no cassino: uma senhora reclamou que ele tinha misturado fichas dela com as dele.
Tmpera no fazia a menor ideia de como as aias sabiam de tudo aquilo, mas o fato era que tinham sempre novidades para contar. S ela no acrescentava nada  conversa.
Tenho certeza de uma coisa disse a srta. Briggs, tomando uma grande xcara de ch.
De qu?
Sua senhoria j est novamente fazendo das dele.
Refere-se a lorde Eustace?
E quem mais poderia ser?
O que  que ele fez agora?
Quando ia para o quarto da minha patroa esta manh, ouvi uns
80barulhos estranhos vindos da torre. Pareciam gritinhos e algum dando risadinhas.
Verdade? A srta. Smith estava ansiosa para saber o resto da histria.
Deixei cair alguma coisa por acaso e, enquanto apanhava, a porta do quarto de lorde Eustace se abriu e Madaleine saiu.
Quem  essa? perguntou a srta. Smith.
 aquela alta e forte, que, quando consigo entender o que diz, parece-me sempre grosseria.
- J sei quem . No tenho nenhuma confiana nela.
E com toda razo. Estava com os cabelos despenteados e o avental amassado. Quando fechou a porta, pude ver sua senhoria em mangas de camisa.
 inacreditvel! Pensei que ele j tinha deixado as camareiras em paz.
Ele no vai mudar nunca. Lembro que h dois anos, quando estvamos no norte com o duque de Hull...
Comeou uma longa histria sobre lorde Eustace e uma criada muito bonita, mas Tmpera no prestou ateno.
Pensava na sorte que teve em no ser vista por ele de manh. Pelo modo como a olhou na primeira vez, o melhor que tinha a fazer era no se encontrarem de novo.
Segundo constava, era o tipo de homem que seduzia as empregadas jovens; depois, as coitadas eram despedidas sem referncias.
Ele  detestvel!, pensou. No posso acreditar que o duque saiba de seu comportamento. Seno, no o convidaria.
De repente, pensou que o duque tambm podia gostar de se divertir com as empregadas, mas imediatamente se envergonhou de imaginar semelhante coisa.
Como  que um homem que tinha compreendido to bem o que ela tentou explicar sobre ver e ouvir a mensagem de uma noite de luar podia ter outro comportamento que 
no fosse o mais correto e impecvel?
81Fosse qual fosse o modo de agir de lorde Eustace, tinha absoluta certeza de que o duque era um homem ntegro e sensvel.
Mesmo assim, tinha que evit-lo.
Ficava triste s com a ideia, mas no podia, de forma alguma, desviar a ateno dele da madrasta.
Era absurdo pensar que ele podia se interessar por ela como mulher. Gostava dela apenas como artista, o que era diferente.
Se o duque pedisse a madrasta em casamento, no haveria a menor possibilidade de ela continuar a aceitar seus galanteios.
Toda mulher que gostasse da vida da alta sociedade adoraria tornar-se duquesa, e Tmpera sabia muito bem como a madrasta amava esse gnero de coisas e sonhava brilhar 
em todas as festas e reunies. S esperava que lady Rothley no deixasse transparecer muito claramente sua preferncia pelo conde.
Na primeira vez que o viu, achou que era velho, porque tinha praticamente a idade de seu pai. Lembrava muito bem de seus olhos negros e do porte aristocrtico e 
nobre. E tambm da voz profunda e da impresso que dava de estar sempre bem-disposto. Exatamente o tipo de que Alaine gostava.
A nica eventualidade que no tinham previsto, quando aceitaram o convite do duque, era que a madrasta se apaixonaria pela primeira vez na vida. Agora, a nica coisa 
que podia evitar que tomasse qualquer deciso desastrosa era seu esnobismo.
Tudo parecia to confuso...
De repente, lembrou que, se queria colocar o quadro na escrivaninha do duque, aquela era a melhor hora. Estavam todos almoando no terrao e ficariam l pelo menos 
umas duas horas ainda.
O terrao era uma verdadeira maravilha, todo cheio de buganvlias que cobriam as paredes e as grades que protegiam o precipcio, alm da linda vista. Era todo pavimentado 
e tinha toldos. Tmpera achava que quem estivesse l devia sentir a mesma sensao de estar num ninho de guia, bem alto, vendo o mundo embaixo, mas seguro e bem 
guardado.
82Os criados serviam o almoo, mas, como as arrumadeiras j tinham acabado de limpar, as salas deviam estar vazias. Era a oportunidade que esperava.
Pegou o quadro e desceu a escada com cuidado. Se encontrasse algum, usaria a desculpa do leno que a madrasta teria esquecido.
A sala estava deserta. S se ouviam vozes e risos ao longe.
Tmpera olhou para os quadros, enquanto passava, saudando um por um, como se fossem velhos amigos.
Entrou no gabinete do duque e verificou, com alvio, que no havia ningum. Colocou o quadro na escrivaninha, sentindo que, de agora em diante, iria se comportar 
de maneira diferente. No voltaria a cometer os mesmos erros. Mesmo que tivesse que ficar dentro de casa, no se arriscaria a encontrar o duque em outra noite de 
luar. Era muito perigoso para seus planos, no s pela madrasta, como por ela prpria.
No queria aceitar o porqu desse medo, mas, no fundo do seu corao, sabia muito bem o que estava acontecendo. Na escrivaninha do duque havia um grande mata-borro 
com um suporte de couro, com os cantos em prata e o monograma, tambm em prata, na capa.
O tinteiro era muito bonito. Tmpera tinha certeza de que era do tempo do rei Carlos II e, por isso, extremamente raro e valioso.
No pde deixar de olhar mais uma vez para seu quadro; depois, instintivamente, procurou o anjo de Leonardo da Vinci.
Quem quer que o tivesse pintado, fizera uma tima reproduo. Sabia que o artista havia copiado pela original que estava no Louvre, no pelo da National Gallery.
Ser que era realmente parecida com ele?
Era difcil ter certeza.
O rosto doce e meigo do anjo estava to gravado em sua memria como seu prprio rosto, quando se olhava no espelho.
E o duque, o que ser que ele achava?
Se tinha notado a semelhana, no fez nenhum comentrio.
Na noite anterior, tinham estado to prximos! Quando comentaram
83sobre os quadros, teria sido fcil para ele dizer que a achava parecida com o anjo pintado por Leonardo da Vinci h mais de quatrocentos anos.
Pode ser que ainda venha a reparar nisso, pensou.
Antes de sair, no resistiu e foi ver mais uma vez A Madona na Igreja. Era a jia mais rara da sala. Seus olhos percorreram o manto vermelho da santa, a coroa da 
cabea, os raios de sol que penetravam pelas janelas gticas da igreja. Subitamente, Tmpera sentiu que alguma coisa estava errada.
Observou a pintura mais de perto.
Fechou e abriu os olhos e foi verificando o quadro de diversos ngulos.
Era estranho! Qualquer coisa estava diferente, ou ser que j no se lembrava bem?
No conseguia explicar, mas parecia diferente.
Pensou que estava inventando coisas. Devia ser exatamente o mesmo que tanto a tinha encantado desde a primeira vez.
Mas por que  que agora no sentia a mesma excitao? Parecia frio, mudo, sem aquela espiritualidade de antes. O que  que estava errado? Qual a diferena?
Tirou o quadro da parede e foi at a janela.
Ficou olhando por uns momentos e, assim que voltou a pendur-lo teve certeza absoluta de que no era o original: aquele era falso!
Tmpera passou por debaixo dos arcos que cobriam o caminho principal do jardim, pegou um atalho que ia dar em um olival, fora das vistas do castelo, e sentou na 
grama.
Em outras circunstncias, ficaria deliciada com o aroma das flores, o azul dos jacintos e os amarelos e vermelhos dos junquilhos e anmonas selvagens. Mas agora, 
recostada no tronco de uma velha oliveira, s pensava no problema que deixava sua mente numa escurido total. Parecia que ia passeando ao sol e de repente tinha 
cado num poo de onde no conseguia sair,
84No havia nenhuma dvida de que algum trocara os quadros. E s uma pessoa podia ter feito semelhante coisa.
Por que  que lorde Eustace tinha levantado de madrugada? E o que  que estava fazendo no gabinete particular do duque?
Agora  que Tmpera percebia o motivo de ele estar em frente do quadro. No momento em que ela ia entrar e parou, ele j devia ter trocado as telas e se afastado 
um pouco, para ver o efeito.
Se tivesse chegado uns minutos mais tarde, com certeza no o encontraria mais l e, embora percebesse a troca, nunca ficaria sabendo quem era o ladro.
O que devia fazer agora?
A pintura falsa era muito boa, mas havia artistas na Europa que faziam cpias to perfeitas que chegavam a enganar os peritos. Se no tivesse observado A Madona 
na Igreja to detalhadamente da primeira vez, certamente tambm seria enganada pela cpia que estava l agora.
O original, porm, conseguia transmitir uma verdadeira mensagem espiritual. Como seu pai costumava dizer, as verdadeiras obras de arte tm algo a dizer:  preciso 
saber ouvir e entender. Impossvel descrever isso, mas, para ela, era o mtodo certo para distinguir o verdadeiro do falso.
Papai nunca se deixaria enganar disse a si mesma. At ela, se fosse com outro quadro, no daria pela troca.
Aquele quadro significava algo muito especial para ela, como tambm para o duque.
Assim que se lembrou dele, apertou as mos com desespero, por no saber qual a melhor atitude a tomar.
Se fosse uma convidada comum, o certo seria contar-lhe tudo exatamente como se passou para que o ladro fosse apanhado. Mas se fizesse isso, todos ficariam sabendo 
sua verdadeira identidade. Era inevitvel.
Mesmo que a polcia no fosse chamada, o que Tmpera duvidava por causa do alto valor do quadro, o duque e o administrador iriam
85interrogar os empregados e todos seriam suspeitos, at que provassem sua inocncia.
Nessas circunstncias, as maiores suspeitas recairiam sobre ela Afinal, sabia pintar e era fcil perceber que no era a aia que pretendia ser!
Embora Tmpera soubesse que conseguiria provar sua inocncia, era impossvel esconder de quem era filha. Principalmente porque, assim que comeassem a fazer perguntas, 
o conde certamente a reconheceria.
Tmpera previu claramente a confuso que ia criar, se contasse tudo ao duque, e essa revelao no s seria embaraosa, mas tambm desastrosa para sua madrasta.
Fechou os olhos e tentou pensar com lgica. A melhor soluo era no fazer nada e esperar que fossem todos embora do castelo, antes que o duque descobrisse o que 
tinha acontecido com o quadro.
No entanto, tinha o desconfortvel pressentimento de que, antes de partir, o conde iria ver a coleo e, tal como ela, descobriria que havia alguma coisa errada.
Acontecesse o que acontecesse, estava num beco sem sada. "Oh, papai! pediu, do fundo do corao. Onde quer que o senhor esteja, me ajude! Preciso desesperadamente 
da sua ajuda!
86CAPTULO V
Quanto mais Tmpera pensava no que devia fazer, mais confusa ficava.
Tinha a sensao de que o mundo  sua volta estava partido em mil pedacinhos e no conseguia junt-los de novo.
Era perigoso fazer alguma coisa e, mais perigoso ainda, no fazer nada.
Se ao menos o conde no estivesse no castelo, tudo seria mais simples e at podia ser que ningum percebesse a troca do quadro Por muito tempo.
A maioria das pessoas v apenas o que quer. Mesmo o duque estava to habituado com o quadro que se sentia feliz s por possu-lo e. com certeza, no iria examin-lo 
cuidadosamente todos os dias.
87Mas o conde aproveitaria a visita ao castelo para ver quadro por quadro e coment-los com o anfitrio. Era o tipo da coisa que todos os entendidos em arte como 
seu pai sempre faziam. Mesmo que tivessem visto um quadro centenas de vezes antes, observavam cuidadosamente e, como o pai dizia, ouviam o que ele tinha para dizer.
Precisava fazer alguma coisa. O problema era: o qu?
Continuou sentada  sombra da oliveira, olhando para o vale, sem tomar conhecimento de nada, a no ser de sua confuso mental. Estava totalmente desligada da beleza 
da paisagem, das abelhas zumbindo entre as flores e do aroma dos timos selvagens.
Assustou-se e estremeceu, quando viu uma voz dizendo, num tom divertido:
Posso lhe mostrar um esconderijo melhor do que esse? Olhou para o duque e teve a sensao de que parecia mais imponente e poderoso do que nunca.
Era impossvel disfarar tudo que estava sentindo.
O que aconteceu? Por que est to preocupada?
Afastou o olhar, surpresa por ele ter reparado em seu nervosismo e com o corao batendo descontroladamente. Ele sentou-se a seu lado.
O que  que a preocupa?
Havia um tom de splica em sua voz, que Tmpera nunca tinha ouvido antes.
No.. no  nada.
Enquanto falava, sabia como era irritante algum responder daquela maneira idiota, quando era bvio que havia problemas, e bem srios.
No  bem verdade acrescentou, rapidamente. Mas... no posso contar  Sua Senhoria.
Por que no? E por que  que veio se esconder aqui? Como a moa no respondesse, continuou, com um sorriso:
Se est tentando se esconder de mim, devo dizer que  impossvel. Vivi aqui quando era rapaz e garanto que conheo todos os
88esconderijos. Sempre fugia para lugares onde minha ama e, mais tarde, os professores no me encontrassem.
Tmpera olhou para ele. Como gostaria de saber como tinha sido sua infncia, ouvi-lo contar coisas com aquela voz que a encantava tanto!
Ento, lembrou sua posio e que no devia, de modo algum, estar sentada ao lado do duque.
Se o senhor j acabou de almoar, tenho que voltar ao castelo, que minha senhora...
No pode fazer nada agora, porque sua senhora no precisa de voc. Saiu para passear de carro com o conde.
Oh, no! Tmpera deixou escapar. Ainda bem que o duque no podia entender por que tinha ficado to aborrecida.
No precisa se preocupar com a segurana de sua patroa. Garanto que o conde dirige muito bem e o carro  um dos mais seguros e modernos que existem. Ele at o inscreveu 
no concurso de beleza de Monte Carlo.
Tmpera pensou que era melhor desistir de tentar proteger a madrasta. Como  que ela podia ser to irresponsvel de ir passear sozinha de carro com o conde, dando 
motivo para comentrios?
No fique assim. Desculpe, mas lady Rothley  mais velha do que voc e sabe tomar conta de si mesma.
Sua senhoria  muito impulsiva Tmpera respondeu devagar, escolhendo cuidadosamente as palavras.  muito delicada e... gentil e no gosta de magoar as pessoas.
Vejo que, embora de uma forma muito diplomtica, voc no aprova o conde Vicenzo Caravargio.
No cabe a mim aprovar ou desaprovar, senhor, mas acho que os italianos so muito calorosos e isso pode ser mal-interpretado por uma inglesa.
Como  que sabe de tudo isso? No acredito que, na sua idade e com a vida que escolheu, srta. Riley, tenha tido muita experincia com italianos.
89Tmpera percebeu tarde demais que, novamente, tinha falado demais.
Sua inteno era mostrar ao duque como Alaine era ingnua e inexperiente; mas, como sempre complicou tudo.
No venho aqui h muitos anos disse ele, para quebrar o silncio. Talvez seja bom voc saber que, um pouco mais abaixo, h uma gruta do lado da ribanceira, que nunca 
nenhum dos meus professores descobriu.
Tmpera percebeu que ele a provocava, e no tinha esse direito.
No estou... me escondendo de ningum, senhor. Devo voltar agora ao castelo. E o senhor no devia estar aqui comigo.
Quem  que diz o que devo ou no fazer? Sou senhor dos meus actos.
Claro... claro que . Mas, se algum nos visse aqui, acharia muito esquisito.
No  provvel que algum nos veja. Por isso mesmo  que voc escolheu este lugar.
Mas... eu no esperava... que Sua Alteza me seguisse.
Eu sei. Mas sabia que eu ia agradecer o presente que me deu. Porque o quadro  para mim, no ?
Tmpera fez uma pausa, antes de dizer:
Se realmente deseja ficar com ele...
Claro que quero. Se me permite, gostaria de lhe dizer, sem nenhuma eloquncia italiana, que acho que voc tem um talento raro para sentir e reproduzir cores.
Tmpera ficou corada.
Sua Senhoria ... muito gentil.
Esperava encontr-la pintando, esta tarde. As telas eram boas?
Sim. claro.
Por que no me diz o que  que a aflige? Voc tem um problema.
Tmpera fez um gesto vago com as mos.
90Como  que ia faz-lo entender que no se tratava s de contar o que estava acontecendo?
As pessoas j me pediram conselhos muitas vezes disse o duque, suavemente. E me orgulho de sempre ter ajudado de uma maneira ou outra a resolver os problemas. Gostaria 
muito que voc confiasse em mim.
 impossvel! Eu... no posso falar respondeu de um modo brusco, porque sabia que no resistiria mais tempo. Sua Senhoria tem que me perdoar. Embora possa parecer 
que estou me comportando de um jeito infantil, s eu posso tentar encontrar a soluo para este problema que me aflige.
Tem certeza?
Virou a cabea e seus olhos se encontraram. Tmpera sentiu como se o tempo parasse e teve dificuldade em respirar.
Era como se conhecessem h uma eternidade, e durante esse tempo todo estivessem separados por um fosso, representado por sua madrasta, as diferenas sociais e, agora, 
para piorar tudo, o quadro falso.
Por favor, diga o que se passa!
Por um momento. Tmpera ficou tentada a contar tudo e teve a impresso de que tinha chegado mais perto dela. Bastava o menor movimento para ficar com a cabea encostada 
no ombro dele.
Fazendo um esforo sobre-humano, levantou, quebrando o encanto daquele momento e sentindo o corao doer.
Eu... eu tenho que voltar... senhor disse, com uma voz de criana assustada. Peo que no volte a falar comigo, que no se aproxime mais de mim. No sei explicar, 
mas isso... no deve... acontecer outra vez.
O duque no se mexeu e ela olhou mais uma vez para seu rosto bonito banhado pelos raios de sol que atravessavam as folhas e davam um tom dourado aos cabelos.
Ento, com um soluo abafado de dor, Tmpera foi embora pelo atalho que ia dar no castelo.
91Quando chegou ao quarto, afogueada pela corrida e pelo sol, atirou-se na cama.
Por qu? Por qu? Por que  que ele me faz ficar assim? Sabia muito bem a resposta, mas tinha medo de encarar a verdade,
medo de ouvir o que seu corao dizia.
Quando lady Rothley voltou do passeio com o conde, estava mais linda do que nunca.
Desde que havia se apaixonado, seu rosto tinha uma tal luminosidade que Tmpera achava difcil que algum homem pudesse resistir a tanta beleza.
Voc no estava aqui, quando o conde me convidou para sair de carro disse, feliz. Mas encontrei uma capa para pr em cima do vestido, e lady Barnard foi muito amvel 
e me emprestou uma echarpe de chiffon para segurar o chapu.
Enquanto falava, ia jogando as roupas em cima da cama.
Foi maravilhoso! Senti-me voar. Andamos na estrada a, pelo menos, quarenta quilmetros por hora! E o conde prometeu me levar para passear um dia em seu carro de 
corrida, que faz setenta quilmetros por hora! Imagine, Tmpera,  quase impossvel acreditar em tal velocidade!
No tinha o direito de sair com o conde.
Ningum mais me convidou, e eu queria ir. Foi to bom, Tmpera! Nunca me senti to feliz!
Minha querida, por favor, seja razovel. Sei o que sente por esse homem. Suponha que aceita sua proposta e que, daqui a cinco anos, ou talvez antes, ele se canse. 
O que  que vai fazer?
No sei, nem me importo. Quando ele est perto, no quero saber de mais nada, nem de mais ningum.
E o duque?
Voc no vai acreditar, mas, se o duque me pedir em casamento, eu recuso.
No pode ser! Se ele fizer isso, tem que aceitar.
92No e no! gritou lady Rothley. batendo com a mo no toucador. Quero estar com Vicenzo. Tudo o mais  pura perda de tempo!
A senhora est convidada para ficar mais uma semana Tmpera disse, friamente. Depois, ter que voltar para Londres, J perguntou ao conde quais so os planos dele?
Ontem  noite, ele estava dizendo que ia voltar para a Itlia, mas a conversa no era comigo.
Ele no fez nenhum comentrio sobre ir a Londres"?
No.
E a senhora acha que ele ir?
Lady Rothley escondeu o rosto entre as mos.
No me torture, Tmpera! Sei muito bem o que est querendo dizer. No sou to idiota assim. Mas como  que posso resistir e passar todos os momentos disponveis 
com ele? Sentar ao lado dele no carro e me sentir transportada para o paraso! Oh, meu Deus, por que  que fico assim? O que vou fazer?
Ficaram em silncio. Tmpera sentou junto dela.
No sei o que dizer, minha querida.
Na verdade, no sabia a resposta para nada atualmente. Era tudo to difcil, to complicado! Mesmo durante aquela conversa, o quadro falso no lhe saa do pensamento.
Sabia pelo pai que os italianos eram muito zelosos com o nome e a honra da famlia. Se houvesse um escndalo envolvendo as duas por causa do quadro, certamente a 
madrasta no teria mais chance nenhuma com o conde e nem com o duque.
Eles iro suspeitar logo de mim, pensou. E para provar que era inocente, teria que revelar sua identidade e admitir que tinha mentido o tempo todo.
Nessa altura, poderia acusar lorde Eustace, mas, at l, o assunto j estaria nos jornais, causando um grande desgosto ao duque.
Todos comentariam que lady Rothley era to pobre que nem sequer Podia pagar uma aia. O nome de seu pai seria envolvido, porque ele
93no tinha sido capaz de deixar a mulher e a filha em boa situao financeira.
Seria como uma avalanche, quando um pequeno deslocamento de neve provoca outro maior e assim sucessivamente, at a montanha ir abaixo, causando dor e destruio.
Essa avalanche, uma vez desencadeada, destruiria totalmente sua madrasta, tirando-lhe qualquer chance futura, e isso Tmpera no podia permitir. Tinha que salv-la, 
mas no sabia como.
Vou descansar um pouco. Hoje  noite, chegaremos muito tarde disse lady Rothley, comeando a tirar a roupa.
Por qu? Onde vo?
Vamos jantar em Monte Carlo com o gro-duque Boris de Rssia. Ele dar uma festa no Hotel de Paris. Espero que haja baile, antes de irmos para o cassino.
Ento,  melhor usar o vestido branco disse Tmpera, automaticamente.
Sentia que reagia como um autmato, porque seu crebro estava em outro lugar, dando mil e uma voltas,  procura de uma soluo que no aparecia.
Acho que o vestido branco ficar muito bem. Lady Rothley espreguiou-se na cama. Quero dormir, Tmpera. E, quando acordar, deixar que as coisas aconteam, sem ter 
que discutir com voc nem comigo mesma o que est certo ou errado.
Est bem. No vou dizer mais nada, minha querida. S quero que esteja muito bonita e feliz.
Fechou as cortinas, imaginando quanto tempo duraria a felicidade da madrasta.
Tmpera foi para o quarto.
O castelo estava tranquilo. Todos os convidados descansavam, e senia-se ansiosa para descer e ir ver mais uma vez A Madona na Igreja, s para ter certeza de que 
no tinha se enganado.
Desde que tirou o quadro da parede e o viu claramente  luz do
94dia, teve certeza absoluta da troca. Por isso, ir l embaixo agora era correr um risco desnecessrio, pois algum podia ver.
Embora no tivesse a experincia e o dom de percepo do pai. sabia que no estava enganada. Mas, em sua angstia, esperava que algum milagre acontecesse.
Subitamente, descobriu o que tinha a fazer! No precisava contar ao duque ou a quem quer que fosse! A soluo lgica era trocar o quadro falso pelo que lorde Eustace 
tinha roubado.
Seria o fim das suas preocupaes e ansiedades; do medo de ser descoberta e, acima de tudo, recuperaria o quadro para o duque.
Mais do que nela e na madrasta, pensava nele. Colocando-se no lugar do duque, podia fazer uma clara ideia do desgosto que sentiria por ser roubado numa coisa de 
que gostava tanto.
O corao bateu com mais fora: finalmente, uma esperana nasceu nas trevas.
Tinha que agir depressa. Seno, lorde Eustace faria o quadro desaparecer.
Tentou pensar no que faria, se fosse o ladro. Sentou-se na cama, apoiando a cabea entre as mos, procurando raciocinar com lucidez.
Ele tinha trocado o quadro. Depois disso, levou o Van Eyck para o quarto. Guardou-o em lugar seguro para que ningum descobrisse.
Ainda devia estar em seu poder, porque passou o tempo todo com os outros convidados e tambm porque no agiria precipitadamente.
Tinha que manter um comportamento normal. Se o roubo fosse descoberto, qualquer atitude fora do comum levantaria suspeitas sobre ele.
Tmpera estava certa de que, enquanto lorde Eustace ficasse no castelo, o quadro tambm ficaria.
Provavelmente, receberia um telegrama chamando-o de volta  Inglaterra. Mas o mais provvel era que ficasse at o fim de semana ou que fosse para a casa de amigos 
na vizinhana. Ento, o quadro sairia do castelo.
95Agora, no entanto, estava ali, no quarto de lorde Eustace, e tudo que Tmpera tinha a fazer era ir l busc-lo.
O lorde no era um grande conhecedor de arte, disso estava certa. A cpia era boa, mas qualquer pessoa que entendesse do assunto como o conde ou seu pai e, talvez, 
o duque, saberia instintivamente que no era um Van Eyck. Para o ladro, a nica coisa que interessava era o valor de venda.
Suspeitava de que ele j tinha um comprador; talvez, um negociante de quadros pouco escrupuloso ou um daqueles americanos ricos que estavam sempre prontos a adquirir 
uma obra-prima para suas colees particulares, pouco se importando com a provenincia.
Tenho que entrar no quarto de lorde Eustace, descobrir onde escondeu o quadro e troc-lo pela cpia.
Tinha plena conscincia de que a misso seria muito difcil. Se fosse descoberta durante a troca, no adiantaria jurar inocncia, porque todas as provas seriam contra 
ela.
Ningum acreditaria que, sendo filha de quem era e, portanto, sabendo muito sobre pintura, no fosse uma criminosa, uma vez que estava no castelo com falsa identidade.
 um risco que tenho que correr disse a si mesma.
O primeiro obstculo era descobrir o momento certo para entrar no quarto de lorde Eustace.
Num ponto estava com sorte, porque ele no tinha trazido nenhum criado pessoal: era atendido por um empregado do castelo.
Isso fez com que lembrasse que todo o pessoal comia antes quando o duque e os convidados jantavam no castelo. Mas, quando saam, a criadagem jantava logo depois 
da partida dos patres. Assim, agradavam o cozinheiro, que gostava de ter a noite livre, sempre que podia. Tmpera sabia que, mal os convidados viravam as costas, 
o pessoal corria todo para a sala de jantar.
Esse seria o momento exato para ir  torre e tentar encontrar o Van Eyck roubado.
Faltava ainda mais de meia hora para acordar a madrasta e ajud-la
96a se vestir. Nesse meio tempo, resolveu ir deduzindo onde lorde Eustace podia ter escondido a tela.
Tinha sido bastante esperto para roubar um quadro pequeno, de aproximadamente vinte e cinco por vinte centmetros, portanto, muito fcil de esconder. Lembrou-se 
de um assalto a uma galeria de Roma. Os ladres tiraram as telas das molduras e conseguiram sair da galeria com elas. O problema maior foi tir-las da cidade.
Sir Francis contou as vrias artimanhas que usaram. A polcia revistou todas as malas nas estaes de trens,  procura de fundos falsos ou de qualquer outra coisa 
que pudesse conter telas enroladas.
Tmpera tinha ouvido com interesse o pai contar a histria.
Um homem usava uma bengala especial, dentro da qual cabia perfeitamente uma tela bem enrolada. Outro coxeava, descobrindo-se depois que era outra tela, presa do 
joelho ao tornozelo.
Tmpera deu uma risada.
E conseguiram recuperar os quadros, papai?
Acho que todos. O mais difcil de descobrir foi um homem que tinha uma paisagem amarrada nas ndegas e outro que escondeu a tela dentro do chapu alto. Esse fugiria, 
com certeza, se no fosse a polcia ter reparado que, quando uma senhora na rua lhe perguntou um endereo qualquer, ele no tirou o chapu quando respondeu! Tal 
descortesia custou-lhe dez mil libras de multa e sete anos de cadeia!
Tenho que procurar no chapu de lorde Eustace!, pensou Tmpera. Devia procurar tambm debaixo do tapete e atrs dos outros quadros pendurados nas paredes do quarto,
Um bom ladro nunca usa esconderijos fechados  chave costumava dizer sir Francis.  muito evidente! Quando se trata de diamantes roubados, o melhor lugar para escond-los 
 dentro de um livro falso, esses que so ocos e s servem para enfeitar as estantes.
Mas lorde Eustace no tinha roubado diamantes. Em todo caso, A Madona na Igreja era to pequena, que caberia perfeitamente atrs de um porta-retratos.
97Tmpera fez mentalmente uma lista de todos os lugares onde procurar. S esperava ter tempo de fazer tudo, antes que os empregados acabassem de jantar.
Voc est muito pensativa disse lady Rothley, enquanto a enteada a penteava.
Estou concentrada em torn-la mais bonita ainda, minha querida.
Sinto que vai ser uma noite maravilhosa.
Uma hora de sono tinha sido suficiente para lhe devolver o bom humor e a alegria.
Tmpera quase sentiu inveja, quando a madrasta ficou pronta. Parecia um anjo em seu novo vestido branco.
Hoje, vai ofuscar todas as outras mulheres!
Fez o comentrio, sentindo que talvez fosse a ltima vez que a madrasta pudesse brilhar numa festa. Amanh, talvez tivessem que voltar para a Inglaterra numa terrvel 
situao e se esconder na casa da rua Curzon, tentando encontrar uma soluo para o futuro.
No deVia pensar assim. Tinha que conseguir salvar a situao. No sabia por qu, mas achava que o pai a estava ajudando e orientando seus atos. Sentia como se ele 
estivesse bem perto dela.
Assim que a madrasta desceu, chorou como nunca tinha chorado na vida.
Ajude-me, papai, no me deixe cometer nenhum erro. Mostre-me onde o quadro est escondido.
Por causa do amor que sentia pela A Madona na Igreja, Tmpera de certa forma sabia que haveria de captar suas vibraes e no perderia muito tempo procurando.
Estava terrivelmente nervosa, as mos geladas e trmulas. Do quarto da madrasta, podia ouvir os convidados rindo na sala. Provavelmente, tinham resolvido beber champanhe 
antes de partir. Imaginava os olhares invejosos de lady Holcombe para a madrasta, lady Barnard sendo gentil e amvel, como era sempre, e o conde dizendo frases apaixonadas 
que at pareciam sinceras.
E o que o duque estaria fazendo?
98Sentia uma dor no peito, s de pensar.
Ser que ele tambm estaria admirando sua madrasta? Disputando com o conde um sorriso ou um simples olhar?
Estou com cimes!, pensou honestamente. Como  que podia ser to tola, to louca, a ponto de ter cimes de Alaine?
Olhou-se no espelho, detalhadamente: o severo vestido preto, o rosto plido, emoldurado pelos cabelos pretos. Como  que algum poderia gostar dela, to insignificante, 
quando a madrasta era resplandescente como o prprio sol?
Ouviu a voz do duque e, por mais que tentasse ignorar, a dor no peito continuava a magoar. Teve que fazer um grande esforo para pensar em sua misso.
Era para o bem dele, dela prpria e da madrasta.
No permitiria que perdesse uma coisa to valiosa. Um quadro to importante para ela no podia ir parar nas mos de pessoas sem escrpulos, que s estavam interessadas 
no dinheiro que valia e, no, na beleza.
Vou recuper-lo! Tenho que conseguir! murmurou.
Abriu a porta cuidadosamente, assim que deixou de ouvir vozes no andar de baixo. Estavam todos na entrada, vestindo os casacos para sair.
Escutou claramente as palavras do duque:
Sir William, voc e sua esposa vo na carruagem da frente. E, por favor, levem lorde Eustace. Ao senhor, conde, reservo algo especial'. Ser que se importa de levar 
lady Rothley na outra carruagem e, no caminho, pegar os Lillington na vila Eza?
Ser um prazer respondeu o conde.
Como  que o duque tinha coragem de mandar Alaine sozinha com o outro, mesmo que por pouco tempo?
Sabia, no entanto, que ela ficaria muito feliz com isso. E, tambm, qual seria a reao do conde.
George continuou o duque, falando com lorde Holcombe. eu e voc faremos companhia  sua adorvel esposa.
99Tmpera presumiu que lady Holcombe ficaria encantada por ir com o anfitrio, o que, de certa maneira, marcava pontos a seu favor.
Riram e gracejaram, quando acabaram de ouvir as instrues do duque, e ento Tmpera ouviu a primeira e a segunda carruagens partirem e a ltima encostar na entrada.
Esperava, tensa, com a porta entreaberta.
Boa-noite, Bates.
Boa-noite, senhor.
O criado fechou a porta da carruagem, que se afastou. i
O mordomo entrou no hall. Vamos comer primeiro disse com sua voz solene, e depois! arrumaremos a mesa. Abenoadas palavras respondeu um dos criados. Estou praticamente 
morto de fome! Outro criado fez um gracejo e foram para o corredor que dava para a ala dos empregados. Era o momento pelo qual Tmpera esperava. Sabia que as srtas. 
Briggs e Smith tambm estavam jantando e no estranhariam sua falta, pois chegava atrasada muitas vezes. Alm disso, preferiam mexericar  vontade.
Fechou a porta do quarto da madrasta sem fazer barulho e dirigiu-se rapidamente para a escada que ia dar na torre.
Assim que chegou, certificou-se de que no havia ningum e correu para o quarto de lorde Eustace.
O quarto da torre tinha trs janelas, de onde, como o duque disse, se desfrutava a vista mais espetacular de todo o castelo. Mas, no momento. Tmpera no estava 
interessada na paisagem.
O aposento tinha acabado de ser limpo e arrumado. Por isso, seria perda de tempo procurar nas gavetas e nas roupas penduradas no armrio, ou nos lugares a que os 
criados tinham acesso. Decididamente, lorde Eustace tinha trazido poucos objetos de uso pessoal. No havia nenhum porta-retrato e tanto a caixa de abotoaduras
100quanto a do aparelho de barbear eram pequenas demais para esconder uma tela, por menor que fosse.
Passou uma revista rpida no lavatrio e nas escovas de marfim diante do espelho, desfolhou vrios livros sobre o criado-mudo, revistou um por um os quadros nas 
paredes. Era fcil esconder a tela atrs deles, mas no havia nada.
Sob o carpete era pouco provvel, porque estava preso no cho; nos tapetes, menos ainda: tinham todo o aspecto de serem levantados diariamente para limpeza pelas 
competentes camareiras do castelo.
Comeou a sentir medo.
E se depois de tantos planos no conseguisse encontrar o quadro? Ou se lorde Eustace j o tivesse levado?
Lembrou da histria do homem que tinha escondido o quadro roubado no chapu.
Abriu o guarda-roupa. Num dos cantos, perto de uma fila de sapatos de verniz, estavam duas caixas de transportar chapus em viagem. Eram de couro marrom, com a marca 
de Lock's da rua St. James e tinham as iniciais do lorde.
Tirou uma do armrio, colocou-a em cima de uma cadeira e viu que continha apenas um chapu alto para usar de dia e mais nada. Guardou-a e tirou a outra. Como j 
esperava, estava vazia, porque lorde Eustace estava usando o chapu. Desapontada, preparava-se para colocar a caixa no lugar, quando teve uma ideia.
As caixas eram forradas com cetim, e seria muito simples esconder uma tela pequena como a de Van Eyck dentro do forro. Apalpou bem a costura que ligava o cetim ao 
couro. Parecia bem presa. Apanhou a outra caixa que j estava fechada, tirou o chapu e apalpou tambm.
Por um momento, ficou frustrada, at que percebeu que no estava costurada como a outra: apenas, colada.
Descolou um pouco, sentindo o corao bater de excitao.
Com os dedos, foi procurando. Sim, havia mesmo alguma coisa escondida.
Demorou apenas uns segundos para tirar a tela. Ficou olhando,
101abismada. No era A Madona na Igreja de Van Eyck que ela tanto queria, mas o retrato de uma jovem, pintado por Petrus Cristus.
Colocou-o numa cadeira e voltou a procurar no forro da caixa. Trs minutos depois, tinha  sua frente, no s o retrato de Petrus Cristus, como tambm A Madona na 
Igreja e o painel de madeira de Raphael, representando o So large e o Drago, que estava escondido na tampa da caixa.
Prendeu a respirao. Por aquela no esperava. Agora, ia demorar muito mais tempo para trocar os quadros, sem que lorde Eustace desse por isso.
S lhe restava rezar para ter a chance de entrar no gabinete do duque, antes que voltassem todos de Monte Carlo.
Tinha que esperar que os empregados fossem deitar e depois evitar ser vista pelo criado que ficava sempre de servio, at os convidados chegarem.
Sabia que seria muito difcil, mas a alegria de ter recuperado os quadros dava-lhe foras para enfrentar qualquer obstculo.
Colocou o chapu dentro da caixa, fechou as duas e guardou novamente no armrio.
Estremeceu, ao pegar A Madona na Igreja. Mesmo naquela penumbra, continuava a irradiar uma tal beleza, que nenhuma falsificao podia igualar.
Salvei voc! E consegui fazer isso porque voc pediu e me ajudou a encontr-la. Nenhuma obra falsa consegue falar comigo como voc faz.
Sorriu para a pequena pintura e sentiu como se a santa e o menino a abenoassem.
Colocou os trs quadros debaixo do brao e saiu do quarto com todo o cuidado.
A primeira etapa estava vencida. Tinha sido esperta como um verdadeiro detetive.
Ia to feliz por ter recuperado os quadros, que nem reparou nas trs pessoas que se aproximavam e, de repente, estavam na sua frente.
102Parou, assustada, tentando esconder as telas. Viu o duque olhando para ela e s depois reparou que ele e lorde Holcombe seguravam lady Holcombe!
O quarto do casal ficava junto da escada que dava para a torre, e lorde Holcombe tentava abrir.
Tmpera no conseguiu fazer o menor movimento.
O olhar de espanto e surpresa que o duque fez quando a viu logo se transformou em desdm e desgosto, o que a feriu como se acabasse de ser traspassada por uma espada.
Continuou olhando para ele, petrificada, at que o duque entrou no quarto, ajudando a levar lady Holcombe.
103CAPTULO VI
Tmpera estava no quarto, incapaz de raciocinar. Parecia que algum lhe dera uma martelada na cabea e o crebro tinha deixado de funcionar
Lentamente, como que saindo de um sonho, colocou os quadros no toucador
Nem as cores nem a beleza da Madona a impressionavam mais. S conseguia ver a expresso do duque, olhando para ela na escada da torre
Estava horrorizada com o que viu no rosto dele.
Como  que pode pensar que eu seja culpada?, perguntou a si mesma.;
No entanto, sabia que, aparentemente, no haveria uma explicao 
104lgica para ela entrar no quarto de lorde Eustace, quer ele estivesse ou no. Era inadmissvel que a aia de uma das senhoras fosse vista entrando ou saindo do 
quarto de um convidado, especialmente, se esse homem tivesse a reputao de lorde Eustace.
Tmpera tinha certeza de que o duque conhecia muito bem a fama do amigo e no a desculparia nunca. Talvez, nem mesmo lhe concedesse o benefcio da dvida.
Colocou as mos no rosto que fervia de humilhao, sentindo os dedos frios como os de um cadver. Tudo que era bom, tudo em que acreditava, rura a seus ps. Agora, 
tinha perdido no s o interesse do duque, mas, principalmente, a prpria honra.
Odiava tanto lorde Eustace, que s a simples ideia de ligarem seu nome ao dele era um ultraje. Pensar que o duque a julgava capaz de ter qualquer coisa com um homem 
como aquele era o mesmo que ser atirada num mar de lama.
Mais do que nunca, queria ir procur-lo imediatamente, mostrar-lhe os quadros e explicar o que estava fazendo no quarto do lorde. Mas isso era impossvel; no podia, 
de maneira nenhuma, revelar quem era.
Parecia que o mundo tinha acabado, e as razes que a levaram a se sentir to infeliz com o olhar de desaprovao do duque eram to claras, que no adiantava mais 
tentar se enganar. Estava apaixonada desde o primeiro dia em que se encontraram.
A voz dele tinha o poder de perturb-la como nunca ningum tinha conseguido, e cada vez que se viam seu amor aumentava mais e mais.
Nunca tinha admitido esse sentimento, por orgulho e lealdade para com a madrasta, mas agora tinha chegado a tal ponto, que j no conseguia fingir.
Eu o amo! Eu o amo! murmurava, andando de um lado para o outro no quarto.
Era uma agonia fsica e mental saber que, naquele momento, ele estava pensando as piores coisas a seu respeito. Percebia agora que todos seus esforos para evitar 
o duque na realidade no eram maisnada, seno o instinto de autodefesa protegendo-a de um amor to forte, to violento e arrebatador que a dominava por completo. 
Sempre soube que, no dia em que se apaixonasse, ia ser assim, que no lhe importaria se o amado fosse nobre ou plebeu. A nica verdade era que ele fazia parte dela 
e s estaria realizada a seu lado.
E agora, ele vai me desprezar! Naquela noite, ao luar, tinham vivido momento de uma unio espiritual indescritvel; depois, conversando sobre A Madona na Igreja, 
perceberam que os dois eram igualmente tocados pela beleza e mensagem que o quadro transmitia. Por causa de tudo isso, a desiluso que ele devia estar sentindo era 
muito natural. Ela mesma se sentia suja, como se a lama para onde tinha sido empurrada penetrasse pelos poros.
O que posso fazer? Como conseguirei explicar tudo que aconteceu? Como provar que est enganado?
Tmpera fazia todas essas perguntas, sabendo de antemo que no tinham resposta.
Olhou para as telas em cima do toucador e teve certeza de que a situao agora era bem mais grave. Qualquer que fossem os motivos que fizeram o duque voltar com 
lorde e lady Holcombe, no sairiam'] novamente naquela noite; nesse caso, no conseguiria trocar os quadros como tinha planejado. O que faria com eles?
Estava em p, junto da janela, quando bateram  porta. Assustou-se e, instintivamente, levou as mos ao peito.
En... entre! Parecia que no era ela que estava falando., Era a srta. Smith. Srta. Riley, pensei que gostaria de saber que lady Holcombe teve um acidente. O que 
aconteceu? Parece que, quando iam para Monte Carlo pela estrada de Cor-i niche, uma carroa de carga, guiada por um bbado ou pelo menos 
106por um pssimo cocheiro, saiu de repente de uma estrada lateral. Foi um milagre o cocheiro do duque ter conseguido evitar o desastre!
Mas lady Holcombe ficou machucada?
Bateu a cabea, quando a carruagem parou de repente. Acho que foi apenas um pequeno corte. O pior mesmo foi o susto. A srta. Briggs disse que ela est com uma terrvel 
dor de cabea.
A velha aia ficava realmente feliz, quando era portadora de qualquer novidade, boa ou m.
Sempre achei essas estradas extremamente perigosas. So muito estreitas. Se a carruagem tivesse virado, a histria agora seria diferente.
 mesmo.
Fazia um esforo enorme para prestar ateno no que a outra dizia. De repente, se deu conta de que as trs telas estavam bem  vista em cima da penteadeira. Ficou 
aflita, mas logo se tranquilizou, porque a srta. Smith s se interessava em ser porta-voz das ltimas novidades.
Isto acabou com o jantar dos trs. No acredito que o duque volte a sair. Ele gosta to pouco de festas, que certamente vai achar que  um timo pretexto para ficar 
em casa.
Com certeza, jantaro aqui disse Tmpera, sabendo como isso ia alterar seus planos.
Espero que sim. Foi uma sorte sua patroa no estar nessa carruagem. E a minha tambm,  claro.  essa altura, j devem estar em Monte Carlo.
Tmpera fez que sim com a cabea.
Tenho que ser franca continuou a outra. Estou com inveja da srta. Briggs. Pelo menos hoje, vai conseguir deitar cedo.
Sim...  claro. H alguma coisa que possa fazer para ajudar lady Holcombe?
Acho que a srta. Briggs j providenciou tudo. Foi buscar um vidro de gua de colnia e aproveitou para me contar tudo. Eu estava curiosa para saber por que tinham 
voltado. Abriu a porta do quarto para sair, enquanto dizia: Isso  uma prova, de que, como costumo dizer, nunca temos uma folga.  s pensar que vamos ter umas horas
107descansadas, e logo acontece qualquer coisa para atrapalhar.  uma vida de co, essa nossa!
Foi embora, sem esperar que Tmpera respondesse.
Durante todo o tempo, no conseguia parar de pensar no duque. S tinha vontade de pegar os quadros e ir l embaixo, explicar que tinha conseguindo salvar seu tesouro 
mais precioso. Mas, ento, ele descobriria logo sua verdadeira identidade. Alm do mais, como provar que as telas estavam escondidas na caixa do chapu de lorde 
Eustace? Seria sua palavra contra a dele. Com certeza, o conde exigiria um inqurito.
Pessoas ligadas s artes, como ele e seu pai, estavam sempre atrs de falsificadores. O conde, que tinha muita influncia na Itlia, ficaria feliz, se pudesse agarrar 
um desses malfeitores. E, se o duque resolvesse mover algum processo contra lorde Eustace, a situao ainda se complicaria mais. Todos os mexeriqueiros da Europa 
ficariam sabendo que lady Rothley tinha usado a enteada como aia.
Isso no pode acontecer! No pode!
Todo seu ser exigia que se retratasse junto ao duque, mas como  que havia de desfazer a impresso que tinha dado, quando a viu descer a escada que dava para o quarto 
de lorde Eustace? A partir daquele momento, uma barreira intransponvel se ergueu entre os dois.
Nunca mais iria procur-la, quando se refugiasse no olival ou sentasse ao luar, vendo o mar. Nunca mais se interessaria por sua pintura ou pediria para ver seus 
quadros. Nunca mais conversaria com ela daquela maneira que a encantava tanto.
O que estava sentindo j no era mais amor; era uma terrvel agonia que no conseguia traduzir, mas que a deixava totalmente sem foras para nada.
Ficaria o resto da vida sozinha e triste, sem mais nada para recordar do que os poucos momentos que esteve junto do duque.
Por que no fiquei mais tempo junto dele?
Lembrava como tinha fugido para o castelo, na noite que estiveram
108ao luar, e agora percebia que no tinha fugido dele, mas dos prprios sentimentos.
Meu Deus, o que devo fazer? Rezava sem esperana, como se suas preces se perdessem na aflio de seu desespero.
Guardou as telas numa gaveta e foi para o quarto da madrasta, esperar por ela. No conseguia pensar direito, mas tinha que arquitetar um plano que a ajudasse a resolver 
a situao.
O duque devia estar l embaixo, sozinho ou com lorde Holcombe, e a nica chance que teria de trocar os quadros seria quando todos fossem deitar. Assim que conseguisse 
isso, o melhor a fazer era ficar longe do duque, mesmo que fosse preciso se trancar no quarto at voltarem para a Inglaterra.
O que mais a preocupava era que no poderia colocar as telas falsas no quarto do lorde Eustace naquela noite. Havia uma possibilidade de fazer isso no dia seguinte. 
Mas, se no conseguisse, tambm no teria muita importncia. De qualquer maneira, ele no arranjaria outras cpias para tentar nova troca.
Tinha sido tudo planejado h muito tempo. Tmpera sabia que os quadros eram cpias de outras reprodues e no do original. Todos os quadros de Van Eyck eram conhecidos 
e estavam catalogados. Era fcil comprar uma reproduo em qualquer galeria de arte, mas as que lorde Eustace tinha usado eram cpias realmente muito boas, difceis 
de encontrar.
Se eu destruir as cpias, vai passar muito tempo, at que ele consiga mandar fazer outras, e seja convidado novamente para vir ao castelo e possa levar os originais.
Estavam no fim da estao. Assim, demoraria pelo menos um ano at que o lorde tivesse chance de tentar pegar os quadros. De certa forma, era um consolo. S lhe restava 
voltar a pr os originais no lugar. Isso no seria assim to complicado, e, quando lorde Eustace percebesse, j no poderia fazer nada.
Pelo menos, salvei trs obras-primas que ficaro para a posteridade murmurou. Com um suspiro, acrescentou: E para o duque!
109Mesmo que ele a desprezasse, era a nica prova de amor que podia lhe dar, em segredo.
Deitou na cama da madrasta, mas no conseguiu dormir. Fechava os olhos e s via o olhar de surpresa do duque transformar-se em desprezo.
Eu no sou assim! sentiu vontade de gritar na escurido. Fazendo um esforo, ficou sofrendo em silncio, at ouvir a madrasta
chegar, muitas horas depois. Demorou a entender o que lady Rothley dizia, embora percebesse
pelo tom de sua voz que vinha alegre e excitada. Assim que entrou, a madrasta abraou-a, eufrica. Oh, Tmpera, Tmpera!  maravilhoso e eu sou to feliz! Fiquei 
noiva! D-me os parabns, querida, que mal posso acreditar que  verdade! O conde pediu-a em casamento? No s me pediu em casamento, como disse que no pode viver 
sem mim! Sou a mulher de mais sorte e mais feliz do mundo inteiro! Atirou o agasalho em cima de uma cadeira e foi para a frente do espelho do guarda-roupa. Ser 
que no estou sonhando?  verdade que estou apaixonada, como nunca pensei estar, e pelo homem mais maravilhoso do mundo? Oh, minha querida, fico to feliz pela senhora. 
Lady Rothley abraou-a de novo. Voc nunca acreditou que ele me pedisse em casamento, mas pediu! Quer que eu seja sua mulher e vamos para a Itlia depois de amanh, 
para me apresentar  famlia. Vo casar l? Acho que sim, e estou muito satisfeita por deix-lo tratar de tudo. A nica coisa que quero  agrad-lo. Deu um suspiro. 
Ele  to forte, completamente seguro do que quer e de como conseguir.  isso que mais me atrai. Disse que se apaixonou por mim desde o primeiro dia e que passou 
toda a vida procurando algum to bonita como eu! Tudo isso parece mesmo um sonho! 
110E . Foi uma verdadeira sorte termos vindo para c. J pensou se eu aceitasse a corte do duque antes de conhecer Vicenzo?
Tmpera no respondeu. Passado um instante, lady Rothley disse:
No pense que vou me esquecer de voc. Vai voltar para a Inglaterra e depois mandaremos busc-la.
No quero ser um estorvo para a senhora.
Voc nunca ser! Sei muito bem que foi porque me ajudou a ficar to bonita que Vicenzo se apaixonou por mim. Felizmente, gastamos todo aquele dinheiro na Lucille, 
antes de virmos para c. Imagine s se ele no tivesse reparado em mim?
Foi para o seu rosto que olhou: no para seus vestidos.
Isso  muito bonito num livro de conto de fadas, mas voc sabe perfeitamente que as roupas so muito importantes. Se eu tivesse ido ao cassino com um trapo velho 
qualquer, no teria feito sucesso a ponto de Vicenzo ficar cheio de cime porque os homens todos olhavam para mim.
Papai tinha muita considerao pelo conde Tmpera disse, pensativa. Acho que ficaria satisfeito, se pudesse saber da sua felicidade.
Talvez ele saiba, e fico feliz por Vicenzo ter sido amigo de Francis. Sou uma mulher com muita sorte por ter esses dois homens extraordinrios em minha vida.
Tmpera beijou o rosto da madrasta e ajudou-a a deitar.
Acorde-me cedo amanh de manh, por favor. No posso perder um minuto da companhia de Vicenzo.
Tmpera prometeu e foi para seu quarto.
Pelo menos agora a madrasta tinha o futuro garantido e estava feliz como nunca. Mas para ela no havia mais esperana, nenhuma luz no final daquele tnel escuro 
e angustiante onde se sentia. No conseguia deixar de pensar que, se no fosse por causa de lorde Eustace, agora no teria mais motivo nenhum para se sentir culpada 
com o interesse do duque. Ou ele estaria interessado s em sua pintura?
111
J no havia razo para fugir dele ou recear que a ateno que lhe dispensava pudesse prejudicar os interesses da madrasta.
Mas tudo isso tinha acabado! Certamente, o duque no queria voltar a v-la. Quanto mais depressa deixasse o castelo, melhor.
No dia seguinte, devia ter muito cuidado para que o conde no a visse antes de partir e tambm precisava encontrar uma boa desculpa para que a madrasta no levasse 
a aia para a Itlia. Se conseguisse fazer as malas cedo, talvez pudesse sair do castelo sem ningum perceber e pegar o trem de tarde para Londres.
Sofria muito por deixar o duque e voltar para a solido de sua casa, s com a velha Agnes para lhe fazer companhia. Mesmo quando Alaine mandasse cham-la, de que 
adiantaria conhecer novas terras, nova gente, se uma parte dela a mais importante estava naquele castelo da Frana?
Sabia que nunca mais sentiria uma unio espiritual com ningum como a que tinha com o duque. Fisicamente, ento, era impossvel achar algum to bonito, que fizesse 
seu corao bater com tanta fora.
Daqui para a frente, serei apenas uma sombra de mim mesma. A verdadeira Tmpera morreu aqui e nunca mais vai ressuscitar.
Tinha deixado a porta do quarto entreaberta e podia ouvir vozes subindo as escadas. Sir William e lady Barnard j tinham voltado e o duque estava com eles, contando 
o que acontecera com lady Holcombe.
Tenho tanta pena dizia lady Barnard, com sua voz doce. Que coisa terrvel! Pobre Dottie! Gostaria de v-la e dar um pouco de consolo, mas,  essa hora, j deve estar 
dormindo.
Com certeza respondeu o duque. E George tambm j foi deitar h mais de uma hora!
Ento, falarei com ela amanh. Perdeu uma festa linda. Voc tambm, Velde.
Depois do acidente, j era muito tarde para ir novamente para Monte Carlo. Amanh de manh, apresentarei as minhas desculpas ao gro-duque. 112 Foi uma festa realmente 
bonita. Todas as pessoas importantes estavam l. Lady Rothley estava deslumbrante!
Acho que amanh ela vai lhe contar a razo disso.
Voc quer dizer que...? lady Barnard estava cheia de curiosidade.
Lady Rothley fez o conde muito feliz. Acabei de cumprimentar os dois.
Mas que maravilha! Ouviu isso, William? Lady Rothley ficou noiva do encantador conde Vincenzo Caravargio. Eles passaram a noite toda olhando um para o outro, embevecidos.
Que mulher linda! comentou sir William.
Eles contaro tudo a voc amanh disse o duque. Tmpera ouviu os Barnard entrarem no quarto e fechar a porta.
Agora, s restava esperar at que os trs estivessem na cama para poder ir ao gabinete do duque.
Pouco depois, ouviu-o conversando com o conde, enquanto subiam a escada. Foram para seus quartos. Lorde Eustace no estava com eles. S uma meia hora depois,  que 
o ouviu subir com passos pesados, como se estivesse muito cansado ou bbado.
Faltava apenas esperar mais um pouco para que o criado que ficava no hall tambm se recolhesse.
Foi at a janela. A lua espelhava seu brilho pelo vale atrs do castelo, com tal intensidade, que parecia dia. Tmpera foi buscar as telas e levou-as,  janela. 
Ao luar, eram ainda mais bonitas. Ningum, absolutamente ningum, conseguiria fazer uma cpia perfeita de A Madona na Igreja. Como sempre, a magia do quadro penetrava 
bem fundo em sua alma, agora enchendo-a de tristeza. Nunca mais poderia ter nas mos nada to belo, e todas as vezes que recordasse o quadro, a imagem do duque estaria 
junto.
Pensou que o menino Jesus a abenoara, mas na verdade, as poucas horas que o teve em seu poder foram as mais infelizes de sua vida. Seu consolo era poder devolver 
aquele tesouro ao homem que amava.
113Tome conta dele murmurou para a santa. Proteja-o e faa com que seja muito feliz.
Era uma prece sincera, que partia do fundo do corao. No se importava com o prprio futuro. A nica coisa que queria era que o duque fosse feliz para sempre.
Talvez, um dia, ele encontrasse o verdadeiro amor, como tinha acontecido com sua madrasta. Talvez tivesse a graa de amar e ser amado, sem nunca saber que a aia 
que desprezava o adoraria pelo resto da vida.
Sentiu os olhos cheios de lgrimas, mas fez um esforo para no chorar. Segurando os quadros, foi at a porta. Nem um som na casa. Devagar e cheia de cuidado para 
no fazer barulho, desceu a escada. Estava muito escuro no hall. Embora as janelas fossem altas, os cortinados eram muito pesados e impediam a passagem do luar.
Na sala de estar, as cortinas eram de seda e havia bastante claridade. Tmpera foi depressa para o gabinete do duque.
Toda aquela atmosfera estava impregnada pela personalidade dele. Ficou quieta por instantes. Nunca tinha tido aquela sensao: parecia que ele estava l, esperando 
por ela.
Mas no havia tempo a perder com devaneios.
Foi at a janela e, com muito cuidado para no fazer barulho, abriu as cortinas para ver melhor. O luar entrou, cobrindo os quadros com uma luz difana. Um dos raios 
parecia iluminar de propsito o rosto do anjo da obra-prima de Leonardo da Vinci.
Era uma tolice, mas Tmpera no conseguiu deixar de imaginar se o duque, ao ver aquele anjo, pensaria nela.
Se isso o fizer lembrar de mim, com certeza vai se desfazer do quadro, pensou, infeliz. Para ele, no sou um anjo, mas uma mulher perdida! E no h ningum que possa 
mostrar o quanto est enganado.
Colocou as telas em cima da escrivaninha e tirou da parede a cpia de A Madona na Igreja. Com aquela luz, era fcil ver-se garras que prendiam a tela  moldura. 
Lorde Eustace provavelmente tinha deixado tudo como estava antes. Embora no estivessem muito presas.
114Tmpera teve que apoiar o quadro na escrivaninha e usar uma faca de papel para ajudar a soltar uma das garras que estava difcil de virar.
Trocou as pinturas e simplesmente girou as garras, de maneira que a tela ficasse segura. Seria melhor se as martelasse, mas faria barulho. Pediu a Deus que aguentassem 
pelo menos at lorde Eustace deixar o castelo.
Segurou o quadro, sentindo novamente a mensagem maravilhosa que a obra lhe transmitia. Os raios de sol, atravessando as janelas gticas de igreja e fazendo brilhar 
as pedras preciosas da coroa da santa, pareciam trazer uma mensagem de esperana. Mas Tmpera sabia que era apenas uma iluso. No haveria mais esperana para ela; 
a partir de agora, a tela falaria apenas com o duque.
Quando ia pendurar o quadro, ouviu a porta da sala se abrir. Voltou-se, mas, por um momento, no conseguiu distinguir quem tinha acabado de entrar. Um homem veio 
em sua direo. De repente, percebeu, apavorada, que era lorde Eustace.
Ento,  voc que est atrapalhando meus planos!
O tom frio e cruel fez com que ela desse um passo para trs, segurando o quadro com fora.
Quem  voc e que diabo est fazendo nesta casa?
O dio na voz dele fez com que Tmpera recuperasse o sanguefrio. Em vez de medo, sentiu uma raiva enorme daquele homem.
Voc alguma vez pensou que suas imitaes poderiam convencer algum que entendesse de arte?
Como  que sabia que eram imitaes?
Simplesmente, olhando para elas.  inacreditvel que uma pessoa da sua posio se comporte de uma maneira to desprezvel!
Acha?
Lorde Eustace aproximou-se mais e ficou olhando para ela.
Era estranho, mas Tmpera no sentia mais medo nenhum dele.
J coloquei um dos quadros no lugar e agora vou colocar os outros. Pode pegar suas cpias baratas e guard-las de novo dentro da caixa de chapus!
115E voc acredita, realmente, que vou permitir que faa uma coisa dessas?
Ainda usava a roupa a rigor. Por qualquer razo que ela desconhecia, estava preocupado com os quadros; foi  caixa e descobriu que no estavam l.
E como  que vai me impedir? Se fizer alguma coisa, ter que se explicar com o duque.
Isso  verdade. Voc me coloca numa posio muito desconfortvel, sua criada miservel!
Acho que lhe dei uma lio. Agora sabe que os quadros falsos no enganariam ningum que entendesse um pouco do assunto.
Olhou para lorde Eustace enquanto falava e percebeu em seu rosto uma expresso difcil de definir. No era embarao, nem frustrao de ter sido apanhado. Olhava 
para ela friamente, e pensou que fosse tentar suborn-la para ficar calada.
Com um gesto rpido, ele abriu a janela. No estava calor, mas o frescor da noite serviu para relaxar.
Vou trocar os outros quadros disse para lorde Eustace. E s porque no quero ser envolvida nessa histria mesquinha, no direi nada ao duque. Espero que a conscincia 
lhe pese.
Voc  corajosa. Imagine que eu toque a campainha e diga a todos que a encontrei substituindo os originais do duque por cpias falsas?
Tmpera pensou rapidamente e respondeu:
Seria muito fcil para eu provar que no tenho dinheiro para arranjar imitaes como essas. Qualquer acusao contra mim implicaria numa minuciosa investigao, 
e sabe muito bem que, mais cedo ou mais tarde, tudo seria descoberto.
Voc tem resposta para tudo.  uma pena que eu no tenha tempo para ouvir a histria de sua vida. Deve ser bem interessante.
Tmpera ficou inquieta com seu modo de falar.
Arrancou o quadro das mos dela.:
116No vai precisar dele a partir de agora disse, colocando a 'ela numa cadeira.
Antes que Tmpera percebesse o que estava acontecendo, ou pudesse fugir, ele a segurou e tapou-lhe a boca com a mo.
Cadveres no contam histrias, e ningum vai se preocupar com a morte de uma reles aia.
S ento, Tmpera compreendeu o que ele ia fazer. Comeou a se debater com toda fora, tentando gritar, mas no conseguia. O homem era forte, e a posio em que 
a segurava, com a cabea inclinada para trs, deixava-a totalmente sem ao. Tinha as mos livres e bateu com fora no peito, sem resultado nenhum; cada vez se aproximavam 
mais da janela.
Isto vai ensin-la a no se meter onde no  chamada! Sentiu o parapeito da janela sob o corpo e virou a cabea para baixo. Aterrorizada, viu o abismo e as rochas 
onde iria bater, ao cair.
No tinha a menor chance de sobreviver.
Tentou se agarrar ao parapeito, sabendo que, assim que lorde Eustace a largasse, despencaria como uma boneca. Gritou com todas as foras que tinha, mas s saiu um 
som fraco e quase inaudvel.
Quando ele tentava soltar seus dedos da janela, ouviu vozes se aproximando.
Tmpera pensou que j estava caindo no precipcio, mas algum a segurou e puxou para dentro.
Ficou tonta e sem fala por um momento, sem perceber nada do que acontecia e com a sensao de que o corao tinha parado de bater.
Sentiu que a amparavam e que essa mesma pessoa a salvara no ltimo instante.
Mas tremia tanto e estava to assustada, que no conseguia pensar em nada, a no ser no precipcio e nas rochas.
Falaram com ela. No entendeu nada, mas reconheceu a voz de seu salvador. Fechou os olhos e enterrou o rosto no peito do duque, que a abraava,
117Sentiu que a levava para a sala e a deitava num sof. Agarrou-se a ele, com desespero.
Est tudo bem. Est tudo bem. Voc est salva. Compreendeu, de repente, que no ia morrer mais, e comeou a chorar.
Ele a apertava contra o peito, dizendo:.
Voc est salva, minha querida. Salva. E nunca mais ningum vai mago-la.
Era sonho? Tudo aquilo certamente fazia parte de sua imaginao. Mas, quando sentiu os lbios dele na testa e levantou os olhos rasos de lgrimas, viu que era tudo 
verdade. Como  que voc foi fazer uma coisa to perigosa? Tentar colocar as telas novamente no lugar? Voc... sabia... que tinham sido... trocadas? Descobri antes 
de sair para o jantar, ontem  noite. O conde percebeu que eram falsos, assim que viu o quadro de Raphael.
Eu no sabia que lorde Eustace tinha tirado esse, at que o descobri no... quarto dele.
Por que no me contou logo o que tinha acontecido? Minha adorada, eu no a queria envolvida numa coisa destas.
Tmpera arregalou os olhos ainda cheios de lgrimas.
O... que...  que... est dizendo? O duque sorriu.
Ser que  preciso dizer que me apaixonei por voc desde o primeiro dia em que a vi? Que voc  o anjo do Leonardo da Vinci, que tenho procurado toda a minha vida?
Quer dizer... que... acha alguma semelhana?
Percebi logo que a encontrei no jardim.
Ele olhou para trs, e Tmpera viu que a porta que dava para o gabinete estava fechada.,
Como sentisse obrigao de explicar esse gesto, o duque disse: Podemos deixar lorde Eustace com o conde. A nica coisa que me importa agora  voc, meu amor. 
118Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, antes que entendesse claramente o que estava acontecendo, o duque beijou sua boca. Por segundos, sentiu apenas surpresa; 
depois, como acontecia ao ver A Madona na Igreja, deixou que toda a beleza daquele momento a dominasse. Estavam to prximos um do outro, que no conseguia pensar,
s sentir.
O medo, o terror, tudo desapareceu, ficando s o duque e a magia
do luar que os envolvia.
Era tudo que tinha sonhado. Era amor, como sempre imaginou
que devia ser.
Era a felicidade que iluminava seu corao.
119CAPTULO VII
Tmpera passeava pelos jardins da vila Caravargio, em Roma, passando pelas esculturas raras e valiosas junto dos ciprestes.
Usava um vestido de chiffon azul-escuro, que parecia sado do quadro de um grande mestre e que contrastava com as flores que nasciam em abundncia junto das cercas 
e dos pilares das esttuas.
Era fim de tarde, e os raios dourados do sol banhavam Roma, tornando-a ainda mais linda. Chegou a um dos lados do jardim, de onde se avistava toda a cidade, como 
se fosse um prespio. A Catedral de So Pedro aparecia ao longe, recortada contra o cu dourado.
Gradualmente, aquela luz avermelhada foi desaparecendo, dando lugar a um azul profundo, caracterstico do incio de uma noite de vero. Estava encantada por toda 
aquela beleza, sentindo o corao
120bater com mais fora, ao aproximar-se a hora em que o duque chegaria da Frana para ficar com ela.
No queria estar na vila, quando ele chegasse. Precisava encontr-lo a ss, rodeada por toda aquela beleza que faria sempre parte de suas vidas.
Era quase impossvel acreditar que, uma semana atrs, escapara da morte por uns segundos apenas e que tinha sido salva da destruio, para conhecer a mais perfeita 
felicidade nos braos do duque.
Guardava com todo o carinho a lembrana de seu beijo. Ningum poderia jamais sentir tamanho xtase. Lembrava-se de tudo que tinha acontecido a seguir; principalmente, 
quando ele perguntou, com aquela voz maravilhosa:
Quando  que quer casar comigo, minha querida?
Foi nesse momento que ela, pela primeira vez, tomou conscincia de toda a situao.
Voc no pode. No deve.  errado. Ele sorriu.
Vou ficar muito orgulhoso e honrado por casar com a filha de sir Francis, amigo de meu pai.
Voc... sabia?
Puxou-a para mais junto do peito.
Quando a vi no jardim a primeira vez, percebi como era parecida com o anjo de Leonardo da Vinci, que eu tinha procurado toda a minha vida, e ento me apaixonei por 
voc, meu amor. Fez uma pausa. No, no  verdade. Amei-a desde os nove anos de idade, mas essa  uma histria que contarei mais tarde.
Tmpera protestou, e ele continuou:
Mas eu sabia que voc era minha, que me pertencia e que ningum havia de nos separar. Tudo isso eu sentia dentro de mim, mas tive que agir com cautela. Por causa 
de tudo que possuo e por alguns dos meus bens serem insubstituveis, como sabe, preciso ter uma segurana eficaz. Quando telegrafei para Londres, pedindo informaes
121sobre a aia de lady Rothley, fui informado de que ela no tinha nenhuma e viajaria acompanhada da enteada, srta. Tmpera Rothley.
Ento, voc soube desde o incio quem eu era...
Sim. meu amor. Foi assim que fiquei sabendo, mas, para no mago-la, fingi o tempo todo.
Eu no disse nada sobre os quadros, porque tive medo de que as pessoas soubessem que estava passando por aia da minha prpria madrasta, e assim iriam julg-la mal, 
sem razo nenhuma.
Tudo isso era compreensvel, se no se tivesse exposto a uma situao to perigosa.
Percebeu a emoo na voz do duque e, apertando o rosto contra o dele, murmurou:
Agora, estou fora de perigo.
E estar para sempre. Nunca mais deixarei que saia de junto de mim. E se algum homem tentar mago-la, eu o mato!
Ao ouvir essas palavras, Tmpera lembrou-se de lorde Eustace e olhou para a porta fechada.
Ele no vai fazer mais nada disse o duque.
Se houver algum inqurito, todo mundo vai ficar sabendo o que aconteceu. E isso pode prejudicar minha madrasta.
S mesmo voc pensaria sempre nos outros, antes de pensar em si. Mas no se preocupe, o conde vai resolver a situao. Neste momento, s posso pensar nos seus lbios.
Beijou-a novamente.
Assim que o conde veio ter com eles, Tmpera percebeu que j tinha encontrado uma soluo. Beijou-a no rosto, dizendo:
Pelo que vejo, Velde, temos que dar os parabns um ao outro.
Estou to feliz por causa de minha madrasta!
E eu estou feliz por voc respondeu o conde. Acho que Velde  exatamente o que seu pai queria para voc.
Disse isso com tanta sinceridade, que Tmpera sentiu lgrimas nos olhos.
122Sou... uma pessoa com sorte!
Tirou-me as palavras da boca, querida. Eu  que tenho muita sorte.
Acho que ns todos temos. Mas agora, temos que ser prticos: criar um escndalo  uma loucura.
O que voc fez com Eustace?
Disse-lhe para deixar o castelo dentro de uma hora. E que, se no fosse ter com o pai na frica do Sul, moveramos um processo contra ele, no apenas por roubo, 
mas tambm por tentativa de homicdio!
Tmpera deu um grito de protesto, mas o conde acalmou-a:
No se preocupe. S queria assust-lo. E consegui. Far o que lhe disse, porque no tem outra alternativa.
i Tem certeza de que vai obedecer? perguntou o duque.
Absoluta. Disse-lhe que no pusesse os ps na Europa nos prximos cinco anos. Estou certo de que no foi a primeira vez que fez isto, j mandei investigar.
Voc v, meu amor, como eu tinha razo em deixar tudo nas mos de Vicenzo?
Realmente, foi o conde quem resolveu tudo.
Lady Rothley e sua aia deixaram o castelo um dia antes do previsto e pegaram o trem para Itlia ao meio-dia.
O conde acompanhou-as. S quando o trem saiu da estao,  que Tmpera deixou o vago de segunda classe, onde os empregados do duque a tinham colocado, e foi se 
juntar ao conde e  madrasta.
Foi uma viagem cheia de alegria. Vicenzo e lady Rothley estavam felizes, e Tmpera passou o tempo todo relendo o bilhete que o duque lhe tinha dado antes de partir.
Nele, expressava seu amor com tanta eloquncia, que parecia estar ali, junto dela.
Velde vai se encontrar conosco na Itlia, assim que todos os convidados forem embora. Para no levantar suspeitas explicou o conde. Ele dir que quer estar no nosso 
casamento, e tenho certeza
123de que est to ansioso para partir, como voc, minha querida Tmpra, est por encontr-lo novamente. O olhar de alegria da moa confirmou suas palavras. Chegou 
a Roma muito pouco atraente, porque s levava os vestidos que tinha trazido de Londres. Vinte e quatro horas depois, a crislida, como ela prpria se chamou, transformou-se 
numa linda borboleta.
O conde mandou que as melhores costureiras de Roma viessem para a vila e providenciassem um guarda-roupa to rico, que ela achava impossvel que o duque a reconhecesse.
Quando protestou, ele respondeu:
Faz parte do meu presente de casamento, e devo dizer que ser impossvel retribuir a amizade que recebi de seu pai e a gentileza e carinho com que voc sempre tratou 
minha futura esposa.
Se Tmpera estava radiante de felicidade quanto ao futuro, tinha tambm certeza de que a madrasta havia encontrado o nico homem que poderia faz-la feliz.
O conde no tratava lady Rothley como uma criana, como seu pai fazia, mas como uma coisa muito preciosa, que ele queria proteger de tudo.
Tudo que espero de voc, mia bella Tmpera ouviu-o dizer uma vez  que encha meus olhos com todo o seu encanto e beleza.
Estou to feliz, to terrivelmente feliz! costumava dizer Alaine, sempre que ia dar um beijo em Tmpera e lhe desejar boa-noite. Como  que podamos imaginar, ao 
embarcarmos para o sul da Frana, que amos a caminho do paraso?
Para Tmpera, isso s aconteceria quando casasse com o duque. E agora que ele devia chegar a qualquer instante, sentia o corao bater cada vez com mais fora a 
cada segundo que passava e que o trazia para perto dela.
A luz dourada que banhava a cidade de Roma foi aos poucos desaparecendo,  medida que o cu escurecia.
No alto, acima dos ciprestes, a primeira estrela apareceu, brilhando atravs de um vu translcido. Aquele era o momento exato em que
124as ruas, iluminadas ao anoitecer, possuam uma cor rosada, como se estivessem guardando o sol at o amanhecer. A Catedral de So Pedro, refletida no rio Tigre, 
tinha um tom prpura, e as notas de carrilho
ecoavam no ar.
Os sinos de Roma tocavam a Ave-Maria. Tinha acabado mais umdia. Mas, para Tmpera, a vida apenas comeava.
Ouviu passos atrs dela, mas no se voltou, esperando por ele tranquilamente, como tinha feito desde o dia em que nascera.
O duque aproximou-se, dizendo, com aquela voz quente que ela tanto amava:
Voc  real? Ou ser o anjo por quem sempre procurei e que agora acabei de encontrar no pas ao qual pertence?
Tmpera sorriu e virou o rosto.
Ficou incapaz de se mover, dominada pela beleza, personalidade e firmeza de carter do homem que amava. Olhou para os olhos dele, e pareceu-lhe ver ainda um pouco 
do fogo dos ltimos raios de sol.
Eu a amo! Nunca pensei que o tempo passasse to devagar, longe de voc.
Abraou-a, apertando-a bem junto do corpo, e suas bocas se encontraram.
Ele era um pouco do manto dourado que cobria a cidade, parte do anoitecer, das esttuas e dos ciprestes.
Amo voc! Amo voc!
Tmpera no sabia se tinham sido seus lbios ou seu corao que falaram, mas o duque ouviu.
Abraados, foram sentar num muro de pedra de onde podiam ver as guas prateadas do Tigre, serpenteando vagarosamente pelas igrejas, castelos, catedrais e torres.
Amanh de manh vamos assistir ao casamento de sua madrasta. Depois, ser o nosso.
Amanh?
No posso esperar mais tempo. E vamos passar a lua-de-mel,
125vendo algumas das maravilhosas pinturas italianas, que falaro conosco, como seu pai dizia.
No posso imaginar nada mais... maravilhoso do que... v-las e ouvir o que tm a dizer.
Acabaremos nossa visita s obras-primas italianas em Florena. E, quando voltarmos para casa, iremos a Paris, ver o seu retrato no Louvre.
Tmpera deu um gritinho de felicidade. Fui l com papai, quando tinha dez anos. Foi quando ele me disse que um dia eu seria muito parecida com o anjo, mas nunca 
imaginei que mais algum notasse a semelhana.
O duque beijou-a no rosto.
Eu tinha nove anos, um ano menos do que voc, quando meu pai me levou ao Louvre com mais meia dzia de amigos e primos. Havia uma pintora, Antonia, que ele estava 
tentando ajudar. Ento, nos disse que, se cada um de ns escolhesse o quadro de que mais gostava, ele pediria para Antonia fazer uma reproduo para colocarmos nos 
nossos quartos.
Tmpera prendeu a respirao. Sabia bem o resto da histria.
Meus amigos tinham os gostos mais variados. A maioria gostava de batalhas. Alguns, de pinturas alegricas. Voc sabe qual foi o que escolhi?
O quadro que est na parede principal do seu gabinete no castelo.
Quando chegamos em frente do quadro de Leonardo da Vinci, disse para meu pai: " este que eu quero!" Antonia reclamou que era um quadro muito grande e ia levar muito 
tempo para ela poder reproduzir. Respondi que no queria o quadro todo; s o anjo. Meu pai ficou curioso e expliquei que nada podia ser mais bonito do que aquele 
anjo. Ele concordou.
Sempre desejei ter ao menos metade daquela beleza murmurou Tmpera.
Vou levar a vida inteira repetindo, meu amor, no s o quanto
126 bonita, mas como agradeo ao destino por t-la encontrado. Foi difcil acreditar que voc realmente existia, quando se virou para mim naquele dia no jardim, 
com o mesmo sorriso e o mesmo brilho no olhar que da Vinci havia pintado h quatrocentos anos.
Amei voc... naquele mesmo instante disse Tmpera, baixinho. Quando estivemos juntos ao luar e vi que no havia necessidade de palavras para nos entendermos, senti 
como se estivesse nos seus braos, mesmo sem voc me tocar.
Ficou corada e teria escondido o rosto no peito dele, se o duque no segurasse seu queixo com carinho, obrigando-a a encar-lo.
Ns nos encontramos, e isso  o que importa. Sei exatamente o que voc pensa, minha querida, e tudo que sente, porque penso e sinto da mesma maneira.
Voc sabia que eu estava em perigo?
Lembrou por segundos daquele terrvel momento em que olhou para o precipcio l embaixo e percebeu que ia morrer.
Fui deitar, mas no conseguia dormir. J estava ficando habituado, porque, desde que a vi no jardim, nunca mais consegui dormir direito de tanto pensar em voc. 
Mas, naquela noite, tive a impresso de que me chamava, tentando me dizer que estava aflita.
Pensei que voc me odiasse por aquilo que imaginava que eu tinha feito.
No queria falar daquele momento de angstia, quando o duque a viu descendo a escada que dava para o quarto de lorde Eustace, mas agora achava que no devia haver 
segredos entre os dois.
Perdoa, meu amor adorado. Naquele momento, fiquei cego de cime. Mas, quando sa do quarto de lady Holcombe. procurei voc, sabendo que duvidar de sua pureza e inocncia 
para difamar o meu amor.
Pelo desgosto com que ele falava, Tmpera percebeu que tocar no assunto era o mesmo que macular tudo que era sagrado para os dois.
Voc j tinha ido embora disse o duque. No dia seguinte, ia procur-la, fosse onde fosse que estivesse escondida.
127Eu tinha resolvido que voc no me veria mais.
Eu a encontraria. Nada me impediria.
Tmpera pensou que ele ia beij-la, mas, embora seus, lbios quase se tocassem, o duque continuou, dando a entender que queria que aquela histria acabasse de uma 
vez:
Quando o conde veio ao meu quarto, dizer que Eustace tinha descido, percebi que voc tambm tinha descoberto a troca dos quadros e era essa a nica razo de sua 
presena na torre.
Pensei que era seguro ir l, enquanto os criados estavam jantando, mas eu s procurava A Madona na Igreja.
Voc foi muito perspicaz para perceber que era uma falsificao. Vicenzo diz que era a melhor das trs reprodues e que, certamente, enganaria muitos peritos.
Mas no me enganou, porque a mensagem que eu e voc recebemos do original no existia no outro.
Isso  incrvel, meu amor, porque o conde percebeu primeiro o Raphael e, depois, o Cristus.
E como  que voc teve certeza de que tinha sido lorde Eustace?
No havia mais ningum precisando de dinheiro... a no ser, voc.
E no suspeitou de mim?
Nem por um momento. Ningum que se parecesse com o anjo, com o meu anjo, poderia ser imperfeito.
Tmpera corou, e ele continuou:
O conde e eu decidimos apanhar Eustace em flagrante. No adiantava acusar. Ele negaria, e ns no tnhamos nenhuma prova. Achamos que, se j havia trocado dois, 
certamente tentaria mais algum.
Ele tinha trazido s trs falsificaes disse Tmpera.
S sabemos disso. Ento, ficamos de sobreaviso. Quando ele desceu, o conde veio me chamar, como tnhamos combinado, e fomos atrs dele.
Para me... salvar.
128Mesmo agora, fico aflito, s em pensar que teria perdido voc, se chegasse poucos segundos depois.
Beijou-a com toda a paixo. Seus lbios estavam cheios de desejo e ardor, mas ela no teve medo. Aquele era o amor verdadeiro, como sempre achou que devia ser. No 
s espiritual, mas tempestuoso e apaixonado, queimando como o calor do sol e transmitindo a mesma tranquilidade do luar. O duque beijou-a at que se sentiu transportada 
para o paraso.
Amanh  noite, voc ser minha e vou poder demonstrar todo o meu amor, minha adorada.  to grande, to profundo, to envolvente, que s quando formos marido e 
mulher voc vai conseguir entender.
Eu quero... ser sua. Quero estar sempre a seu lado. Estava to excitada como ele.
Voc  adorvel, minha querida! Mas ns sabemos que h entre ns algo muito mais importante do que beleza; algo inexplicvel, mas mesmo assim real. Sorriu, ao acrescentar: 
Seu pai dizia para voc ver e ouvir, e isso ns dois faremos sempre juntos. Mas ele esqueceu de outra palavra, a mais importante de todas.
Qual ?
Ns vamos ver, ouvir e amar! Tudo que peo para o futuro, meu amor,  que possamos fazer essas trs coisas sempre juntos.
" isso que eu quero tambm", era o que Tmpera queria dizer, mas um beijo no a deixou falar.
A nica coisa que conseguiu foi v-lo com os olhos, e ouvi-lo com o corao e am-lo profundamente com corpo e alma.
129QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita importncia aos aspectos 
mais superficiais do sexo, o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constri 
suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso 
das reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e teatrloga. Mas Barbara 
Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por 
sua luta em defesa de melhores condies de trabalho-para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
No perca a prxima edio! Um claro nas trevas
Assustada, Susanna percebeu que no estava sozinha. Havia algum a seu lado, dentro da piscina.  luz do luar, reconheceu Fyfe. Por um momento, pensou que estivesse 
sonhando, pois ele a fitava, sem nenhuma atadura nos olhos. Meu amor, minha querida murmurou, rouco. Susanna estremeceu de medo e escondeu o rosto, suplicando: No 
olhe para mim! Por favor, no olhe! Tinha chegado o pior momento de sua vida. Aquele que precisava evitar a todo custo. Devia fugir, desaparecer, antes que Fyfe 
descobrisse que havia sido enganado. Agora que no estava mais cego, podia ver por si mesmo que sua linda Susanna era na verdade uma mulher feia e gorda.

Fim
